domingo, 31 de janeiro de 2010

O Sexo e a Sinceridade Capito quinto


O que é ou não afrodisíaco?

Recordo-me da noite em que as coisas se consumaram comigo e com o meu cara-metade, fomos ao cinema ver um filme sombrio sobre a vida de um esquizofrénico, mas o que é certo que já há algum tempo que fazíamos uma dança de acasalamento, propus bebermos um copo ele convidou-me para irmos á sua casa, sua só dele, fomos está claro, vai na volta tirando água da torneira só tinha uma garrafa de um famigerado licor de hortelã-pimenta, uma coisa horrorosa que nem as pedritas de gelo disfarçavam, basicamente era uma espécie de pasta de dentes liquida com um leve teor alcoólico da qual bebemos dois copos cada um enquanto fazíamos conversa de chacha e até cairmos nos braços um do outro.

Aprendi mais tarde que ele detesta qualquer coisa mentolada e ao contrário daquilo que se diz que o mentol será algo que poderá refrear os ímpetos masculinos posso garantir que não.

Da mesma maneira que assistiu a muitos concertos ao meu lado e passou dias de fim-de-semana na praia, isto tudo para descobrir depois que não gosta de nenhuma das duas coisas, eu vou aos concertos com amigos e para a praia também….

Uma amiga minha também decidiu fazer um repasto para um namorado, os seus dotes culinários são pouco mais que nulos, fez um prato elaborado de bacalhau com natas que ele não gosta, com bacalhau sem ser demolhado que ele comeu como se fosse um manjar, espetou-lhe com uma sobremesa de ananás, que ele também não gosta, ele aparentemente deliciou-se, são casados e têm duas filhas e ele é rei e senhor da cozinha.

Também conheço quem esperou pelo casamento para oferecer ao marido um frasco de perfume, tendo confessado só na altura que o perfume em que ele se encharcava antes de cada encontro lhe fazia dores de cabeça. Ele usava-o por causa dela!

Portanto afrodisíacos não serão os perfumes, os alimentos, as bebidas, os paus de Cabinda ou as lingeries provocantes será mesmo o desejo, o amor, o resto é acessório.

sábado, 30 de janeiro de 2010

O Sexo e a Sinceridade Capitulo quarto


O sexo tem algo de recreativo, não só mas também, muitas vezes serve de escape, de desporto, de mecanismo de subida do ego, de aprendizagem.

Às meninas, pelo menos quando eu era menina, falavam pouco sobre o assunto apenas nos massacravam com a ideia de não irmos na canção do bandido, de sermos recatadas, etc e tal. Tal situação dava para muitos equívocos principalmente não sabermos muito bem o funcionamento da “coisa”, eu e uma amiga, na puberdade, descobrimos escondido atrás do bar do pai dela o famoso Kama Sutra, todos os dias estudávamos um pouco, daí até chegarmos á conclusão de que se fosse necessária a prática do sexo oral para ser mãe, morreríamos puras e virgens, santa ingenuidade!

Mas depressa percebemos que não era assim embora tivéssemos um desfasamento grande dos rapazes da nossa idade, quando nós sonhávamos com Príncipe Encantado eles sonhavam com uma bicicleta, quando fazíamos pose em biquíni para os desportistas com modelo de nadador salvador eles começavam a perceber que o nosso corpo tinha mudado, quando se interessavam por nós, nós estávamos definitivamente interessadas no rebelde, que dizia poemas ou tocava guitarra ou que tinha aquele cabelo diferente, nessa altura eles tentavam timidamente cantar-nos loas com uma voz que passava do grave adulto para o falsete, atraiçoando-os vergonhosamente, tinham borbulhas e o nariz grande demais, ou as pernas, ou os braços, existia sempre uma parte do seu corpo maior que as outras, coitados….

Depois os homens tem o estranho hábito de fazer uma publicidade alarve das suas capacidades sexuais, desconfio que muitas vezes essa é publicidade enganosa, tem também a atitude glutona de “mais olhos que barriga”, claro que não são todos, felizmente, nós cá também olhamos, avaliamos, fazemos é menos folclore e eles nunca percebem que se safa melhor o homem com ar de menino perdido, que aparente não pede nada, do que aquele que parte logo a dizer alarvices.

A verdade é que sinceramente acho que eles e elas procuram o mesmo com motores de busca diferentes, de vez em quando há um que é compatível e a verdade é que sexo e amor são coisas diferentes mas quando conjugadas são tão formidáveis como maçã e canela, sabem muito melhor.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Pontas soltas


Volto a pegar nas pontas soltas da minha vida, coisas que deixei inacabadas com um estalar de ossos, nada parou, é obvio que não fui insubstituível, uma tentativa de voltar á normalidade pouco normal, porque uma coisa é certa os meus dias raramente são monótonos, calmos ou pacíficos e por outro lado esta semana de regresso deu-me a noção clara que existem razões pelas quais ainda não tive alta, se por um lado continuo a estar dependente, não para tomar banho ou vestir-me, mas para ser transportada, não consigo fazer ainda aquelas maratonas de multiocupações a encher todos os minutos e todas as horas, tenho mesmo que parar de vez em quando é o meu corpo que me grita quando o tornozelo incha e se torna dolorosamente perceptível a existência de costuras cirúrgicas recentes e a existência de coisas aparafusadas aos meus ossos, nesse momento nada a fazer, tenho mesmo de pedir encarecidamente a boleia a um dos prestimosos amigos ou familiares e parar.

Está frio, não ajuda de todo, continuo com esta alma de andorinha que prefere seguir o Verão, aborrece-me solenemente pedir ajuda, reconheço que a oferecem de boa vontade, volto lentamente (muito lentamente para o meu feitio) a regressar ao mundo que no fundo escolhi, a pequena perspectiva de mudar a realidade, o sentir-me útil, a participação activa, a convicção que a vida é feita assim de pequenos nadas, mas que esses nadas são feitos de múltiplas coisas, já tenho os compromissos pendurados na agenda, voltei a usar relógio, voltei a usar-me a mim e por acaso apesar dos inchaços e dores ocasionais sabe-me bem.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O Sexo e a sinceridade Capitulo terceiro


Noites a fio esperei por ti, por vezes quando chegavas com um cheiro de frio, aquecias longamente nos meus braços primeiro, depois com o resto do meu corpo, não existia muito mais, a vertigem de sacudir o frio e a noite, de mergulhar num misto de sentidos, um cheiro diferente, o aveludado da pele, o cabelo sedoso ou áspero, todos os montes e vales de geografia já conhecida e ainda assim mutante.
Não importava quantas vezes sacudíamos o cheiro da noite, com calma ou com pressa desesperante, num ritmo frenético de náufrago, em brincadeira de animais aquáticos, com a fúria da tempestade ou com a calma das águas calma.
Não importava se sacudir a noite era depois de um dia cansativo, desgastante, de mil ideias a fervilhar, compromissos, responsabilidades, coisas que se fazem, pequenas viagens por vezes árduas, contas de deve e haver, perdas e ganhos, despertador em contagem decrescente, planos e projectos, sonhos guardados para depois, não importava.
A geografia mudou, vales que se transformaram em montes, zonas sedosas que o deixaram de ser, planaltos firmes que ficaram com sulcos do arado do tempo, florestas desbastadas, mas ainda assim não importava.
Só importou depois de todas as mudanças, alguns silêncios em que parecia que, como disse um poeta, as palavras estavam gastas, compromissos secretos onde eu não cabia, mas ainda assim fingia não ver, como fingia não ver outras coisas, sorrisos só teus, um certo ar complacente, uns segredos de que adivinhava murmúrios e nada mais. Só depois disso te vi de outra forma, quando descobri que a tua geografia era partilhada de forma secreta com outro alguém, embora ninguém me tivesse informado da partilha, só quando percebi que os sorrisos não eram para mim, que passei a ser uma obrigação, uma coisa que já não querias a teu lado ou poderias querer, só e apenas em recurso porque fazias projectos e sonhos noutro lado onde sacudias o frio das noites que fingias partilhar comigo, nesse lado fazias outros projectos, construías outros sonhos, em amplexos escondidos de adolescente, esquecendo a viagem grande feita a dois, ela própria feita de pequenos percursos, nesse momento a mentira desnudou-se e só aí importou e o frio invadiu-me.

domingo, 24 de janeiro de 2010

O sexo e a sinceridade (Capitulo segundo)


Falemos então da questão do sexo em si, em princípio existe macho e fêmea e será com objectivo de procriar, pelo menos é assim com os outros seres, só agora, recentemente se olharmos para a história da humanidade, o bicho homem/mulher descobriu a reprodução assexuada, in vitro, proveta, inseminação artificial, etc.

De qualquer das maneiras a humanidade cedo descobriu que uma parte importante da coisa é o contrário: o sexo sem reprodução! Descobriu ainda que há sexo para além da reprodução, somos dos poucos mamíferos que vive para além da idade reprodutora, principalmente as fêmeas, mas que no entanto continua a ter sexo, de forma até mais desinibida e descontraída ou não fosse no grupo etário sénior que as doenças sexualmente transmissíveis tivessem subido em flecha, existe ainda, e não é de agora, sexo entre indivíduos do mesmo sexo. Até agora tudo certo?

Morfologicamente os sexos são muito diferentes, o deles varia entre uma minhoca e uma curgete, o delas é sem dúvida primo dos bivalves, duas meias conchinhas com uma espécie de molusco no meio, tal como os bivalves também é viscoso e meio secreto, de pequeninas impingem-nos nomes estranhíssimos “pombinha, rolinha, passarinha”, não sei porquê todos nomes de pássaros, ou melhor diminutivos, parece que o bivalve tem a dimensão e apetência para acolher a tal minhoca/curgete, o que não acontece sempre assim, porque há bivalves que só gostam da sua espécie e curgetes também, esta conversa toda de legumes e marisco para dizer que deve de vir daí várias noções um pouco descabidas, como a noção canibal que se “come” alguém ou que o sexo tem uma espécie de vontade própria e age independentemente do que nos passa pela cabeça. Nada mais falso, não importa o bivalve, maior ou menor ou a vontade da curgete de nunca voltar a ser minhoca, o grande órgão sexual está uns palmos mais a cima em qualquer género, está mesmo na nossa cabeça, é aí que tudo se dá é por isso talvez que os humanos façam sexo para além da procriação ou mesmo com objectivo de não procriar, que o fazem só por prazer, como expressão de ternura e amor, outras vezes de admiração, fascinação, uma coisa é certa a pior maneira é faze-lo por obrigação, calendário ou hábito.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O Sexo e a sinceridade…



Para começar dizer que todos os raciocínios deste texto são meus, baseados na minha apreensão, não são baseados em nenhuns estudos ou estatísticas, provavelmente não serão uma verdade científica ou uma tese sociológica apenas mais uma reflexão inconformada.

Sexo e sinceridade são coisas que em termos históricos nunca foram parceiros comuns, se por um lado ao longo da história as mulheres foram vistas como seres inferiores, pouco dotados de inteligência, em contrapartida cheias de malícia, destinados a serem moeda de troca, parte de espólios de guerra e acima de tudo reprodutoras. Nem vale a pena referir o facto de as mulheres terem sido penalizadas por procriarem fêmeas em vez de machos (Ana Bolena que o diga), algo desvantajoso tanto para ricos, remediados ou pobres, porque um macho é um macho, também não vale a pena falar das inúmeras culturas onde o nascimento de uma filha a algo a equacionar se pode ou não ser corrigido…

Será bom relembrar que nas Guerras de conquistas da antiguidade importante seria matar os derrotados e violar as suas mulheres, de preferência deixando-as grávidas, Roma, diz a lenda foi formada assim com a morte dos Sabinos e o rapto das Sabinas

È claro que tudo isso se alterou, principalmente nos últimos 50 anos, particularmente no chamado mundo ocidental, as mulheres conquistaram terreno, não deixando na maior parte dos casos de continuar a desempenhar todas as tarefas anteriores, diga-se de passagem muito desvalorizadas, hoje espera-se que uma mulher seja boa profissional (tendo que provar o dobro que o colega masculino e correndo sempre o risco de correr o boato que chegou onde chegou á custa de favores sexuais), óptima dona de casa (fada do lar), excelente mãe, cozinheira gourmet e já agora um portento sexual.

Só se pode avaliar tal quando vencemos alguém numa argumentação e se houve em surdina “A gaja deve estar naquela altura do mês” ou quando se chega a casa depois de um dia de trabalho e fazem um ar de espanto “O jantar é isto?!”, isto para além das bocas foleiras sobre a condução feminina ou as múltiplas piadas sexistas.

Dizer ainda que múltiplas tradições ligadas por exemplo ao casamento, não são grande coisa depois de dissecadas, as noivas vestem-se de branco como símbolo de pureza porque só existiam dois tipos de mulher, as puras e as outras, era importante ser virgem entregue a um homem de maneira a garantir que todos os filhos fossem só dele, de preferência a noiva devia trazer um ramo de flores como qualquer criatura entregue em altar de sacrifícios, deve ser entregue pelo pai a marido como se não fosse mais do que um bem, o aro de ouro da aliança, ao qual é dado o simbolismo do amor eterno é uma reminiscência estranha de grilhetas impostas a mulheres capturadas, á medida que se habituavam ao cativeiro eram parcialmente removidas até ser deixado um pequeno aro, de preferência marcado com o símbolo ou nome do seu detentor, esse aro no dedo relembrava as mulheres das grilhetas. Bonito?!

Quando a minha avó nasceu era impensável uma mulher conduzir, na juventude da minha mãe seria impensável optar por determinadas carreiras, ter uma conta bancária ou viajar sem autorização de pai ou marido. Tenho uma parente que nunca estudou o que queria porque a sentença familiar foi de que para se dirigir todos os dias para o Liceu devia de um dos três irmãos acompanha-la no percurso, é claro que os mancebos não estiveram para isso e pronto. Votar neste país foi uma das Conquistas de Abril, a conquista da sexualidade tem sensivelmente a mesma idade que eu.

Esta abordagem peca por muitas insuficiências, por isso desconfio que vou voltar ao tema, pode-se dizer que é uma abordagem amarga, talvez…Não me interessa, é a abordagem que faço hoje, eu, mulher, já crescida, a viver com três homens, que cresceu com homens, que teve como referência em muitas coisas homens, que têm como amigos queridos homens.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Interior


Estas são imagens de mim, da minha perna depois de aparafusada e soldada, tem sido isto que me tem mantido inactiva, dependente, aborrecida…

São imagens interiores não retratam todo o meu interior só estas perspectivas deste pedaço quebrado, outros pedaços quebrados dentro de mim, foram soldando de outra forma, não se conseguem ver mesmo com Raio X, estes sei que me doem e vão doer sempre que o tempo mudar, sempre que eu me esquecer e tiver tempo demais de pé, os outros não obedecem a mudanças climatéricas, por exemplo dói-me sempre uns buracos com que fiquei no peito, um por cada pessoa que partiu da minha vida, existem dias em que a dor é mais ou menos atroz, outros dias não, é quase só uma comichão, assim como um arranhão quase curado, também existem dias em que mais que o buraco da falta fica só o calor que deixaram ao passar por mim, a minha avó luminosa, o meu pai e as minhas tias cúmplices, deixaram assim calor, umas brasas mornas. Depois há outras pequenas dores, como pedaços de tecido muito puído, na maior parte dos casos, as oportunidades perdidas, todos as montanhas da vida escaladas a pulso, todas as batalhas travadas em conjunto ou só por mim, todos os abandonos, solidões, palavras guardadas que nunca foram ditas, ficam assim em pedaços demasiado finos como nuvens baixas. Ainda assim no meu interior existe mais, existe o canto quente e morno onde germinaram os meus filhos, todos abraços e beijos apaixonados, todas as gargalhadas dos amigos, e mais que os desencontros e desacertos da vida existe espaço no meu interior para os incontáveis momentos perfeitos que guardo cá dentro.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Esperar...


Não costumo ser espectadora do meu dia-a-dia, geralmente sou muito interveniente, é mais vulgar desdobrar-me para chegar aos outros do que esperar que os outros cheguem a mim, no meu dia-a-dia, desdobro-me, telefono para saber se tudo está bem, eventualmente levo alguém a uma consulta, levo para a casa onde fizer falta uma palete de leite, de água, o que for…

Nos últimos dois meses tem sido ao contrário, o que tem sido muito complicado, eu fico assim parada á espera, á espera que tragam cigarros, um filme, um livro, o almoço, o jantar, que possam parar para falar comigo, para me contar uma anedota, que me possa levar á rua.

Conto as horas de chegarem a casa.

Os meus filhos chegam, apressadamente dizem qualquer coisa, peço para subirem as persianas deixar entrar a luz, peço mais tarde o contrário, que as baixem para não entrar o frio, leio livros emprestados, tricoto coisas, consigo cozinhar numa de abelha rainha, sentada a dar ordens: dá-me uma cebola, o azeite, deita isto no lixo, baixa o lume…

Tenho dias mais cinzentos que o costume, dias com saudades da rua, com saudades da agitação habitual, dias em que não me apetece falar, dias em que desmancho o que tricotei no dia anterior, dias com saudades de mim, as noites essas são passadas a sonhar, a sonhar que ando, que conduzo e que nado….

sábado, 16 de janeiro de 2010

Um certo tom vegetal....


Os pinheiros tem os troncos negros, como estacas, acabam depois numa rama verde escura, estão húmidos e existem assim coisas a germinar por debaixo das carumas já secas, acamadas, mortas? Adormecidas, talvez.

As gaivotas enganaram-se nos caminhos junto às águas e chegam assim a zonas secas, onde se adivinham rios, depois mar, mas só se adivinham, os outros pássaros ficam confusos, não há flores, tudo está meio adormecido como numa história, que não me lembro, nem do Era uma vez, nem do Vitória, acabou-se a história.

Pode ser uma história qualquer, a história de um passeio no pinhal de uma menina pequena, que sorri a cada nuvem de bafo porque está frio, que se encanta com líquenes e cogumelos, nascidos dos restos de Verão, com as chuvas de Outono e o frio de Inverno, que crescem tenros, silenciosos e secretos, que encolhe os ombros para sentir o calor da roupa, e em cada camada de caruma que pisa adivinha ruídos estranhos, como o estalar das cascas das arvores, as cascas das arvores que têm aquele tom vegetal tão próprio, que uma rapariga mais crescida, que bafeja ar quente para as mãos, enrola mais o cachecol, aquela rapariga crescida acha aquele tom vegetal igual ao tom de certos olhares, há uma mulher também, uma mulher que respira fundo aquele odor de arvores, um odor natural, não em spray, vaporizador, que se lembra de outras caminhadas, de amparar passos hesitantes de quem começa a andar, que ensinou que aqueles chapelinhos estranhos cheiram bem, ao odor do eucalipto, que ensina uma música compassada e repetitiva com lobos a uivar e cucos a cantar na floresta, que noutros dias mais quentes diz “Psiuu! Escuta, o cuco!”, essa mulher passou só ao lado dos pinheiros, hoje, com um olhar de cobiça, lembrou-se que uma parte de si é essa menina, essa rapariga, é ela agora, provavelmente mais velha, de manchas nas mãos e passos incertos deverá continuar-se a maravilhar com o tom vegetal das cascas das árvores.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Só por isso


Existem caminhos infindáveis e

Prazos intermináveis,

Existem coisas tão desejadas que

Chegam na altura em que já não fazem falta,

Frutos tão doces que nos deixam a alma amarga,

Talvez porque nunca mais sentiremos aquele dulcíssimo extremo

Momentos mágicos, irrepetíveis que

Tentamos recriar

Até se tornarem banais

Vazios

Vazios que se enchem assim de si próprios

Não deixando espaço a nada mais

Silêncios cheios, de intenções, vontades, desejos

Palavras vazias como

Cabaças secas

Magoas tão antigas que não podemos

Viver sem aquela dor

Carícias guardadas que apodrecem como folhas outonais

Fomes e sedes antigas, tão alimentadas

Até se tornarem insaciáveis

Furiosas

Por isso e só por isso

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Aprendizagem


Comecei a aprender a andar, os primeiros passos foram dolorosos e estonteantes, até mesmo á vertigem, mas continuo a achar que aprender é mesmo assim uma coisa embriagante, até aprender aquilo que já sabemos, muitas vezes se diz que existem coisas que não se esquecem, andar de bicicleta, fazer amor, até se faz a comparação, quando era miúda passava um anuncio de um limpa vidros (Ajax acho eu, nome de guerreiro grego e bruto da Guerra de Tróia) no qual uma menina de tranças limpava com uma grande rapidez os vidros, com mais rapidez que uma experiente dona de casa, por fim declarava com um ar feliz “é tão fácil como saltar á corda!”, por acaso saltar á corda nunca foi fácil, eu saltava em miúda, horas, tínhamos cordas de corda com terminais de madeira, coisa que neste momento deve de ser desaprovada pela ASAE e mais meia dúzia de organismos, que parecem empenhados em tornar as crianças em macaquinhos amestrados com jogos electrónicos, tacos de golfe e telemóveis de miniatura, e mais uma serie de coisas que nos tiram o prazer de nos espojar no chão, fazer nódoas negras e arranhões, fingir de vaqueiros, de cavaleiros a trepar ameias de castelos inimigos e as outras coisas todas que fazíamos com a corda, coisas imprescindíveis para se crescer.

Sempre gostei de aprender, no entanto acho que dispensava este aprender de andar outra vez, por sempre gostar de aprender sempre tive a posição expectante de saber pouco e de poder aprender algo mais com tudo, penso que já aprendi várias vezes a andar de bicicleta, aprendi muito novinha de calções a trocar os dentes de leite pelos que tenho agora, essa altura seguravam-me no selim e andava sempre a direito e quaisquer dez metros eram uma meta, aprendi sem ninguém a segurar o selim, quando me confundia com os meus primos e gastava as solas a travar com os pés, aprendi outra vez já mãe, pensando quejá não sabia, aprendi várias vezes a fazer amor também, o urgente, o calmo quase rotineiro, o inesgotável, o das descobertas, de vezes em quando também se reinventa, portanto já ando melhor hoje que há três dias, daqui por uns dias espero andar melhor, qualquer dia volto a correr…

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Aposto que são as mesmas...


Existem gotas de chuva a escorrer pelos vidros, por vezes acho que são sempre as mesmas, de há anos, na altura de que me lembro delas achava que as nuvens eram o resultado do fumo, o das chaminés, claro, dos fogareiros dos assadores de castanhas, que perfumavam o Outono e o principio do Inverno com aquele cheiro doce de madeira queimada, a madeira do carvão, a madeira da casca da castanha, pois eu pensava que as nuvens eram feitas assim e com o fumo dos cigarro também, de vez em quando pedia ao meu pai para fazer uma argola de fumo, ele fazia e eu ficava sempre á espera que surgisse no céu uma argola perfeita. Nessa altura eu pensava que as nuvens se faziam assim, não me lembro o que pensava que era a chuva, lágrimas?! Não sei não me lembro, lembro-me que para o mundo ficar no sitio eu encostava o nariz ao vidro da janela via as gotas desceram e esborracharem-se e fazerem assim um caminho secreto, juntaram-se e acabarem no rebordo da janela, nesses pedaços de tempo bafejava os vidros e fazia desenhos no embaciado, desenhos que desapareciam, como num caderno mágico. Mas dizia eu que para o mundo ficar no sítio depois de desenhar nos vidros e assistir ao choro das nuvens e às corridas das gotas, bastava sentir a casa com todos, ou o cheiro do fumo do meu pai, ver as folhas do jardim lavadas e brilhantes, aconchegarem-me com um chocolate quente na caneca favorita. Hoje não consigo colocar o mundo no sítio, as minhas dificuldades, transitórias e temporárias de locomoção, não me permitem tão pouco encostar o nariz ao vidro e fazer desenhos, a televisão informa-me das coisas que vão sendo desarrumadas no mundo, todos os dias mais, já sei o processo da água e a sua metamorfose de estado líquido, evaporação, estado gasoso mas vou fumar um cigarro, sempre mata os pedaços de tempo, enquanto as gotas fazem corridas, aposto que algumas são as mesmas…

sábado, 9 de janeiro de 2010

Afinal


Afinal andar não é fácil, pensamos que conseguimos, teoricamente é simples, é certo que mais do que andar quero correr, quero rapidamente conseguir tudo de uma vez só, quero fazer tudo o que fazia, quero colocar coisas em ordem, quero ser autónoma, subir e descer escadas, mas afinal nada é tão simples assim.

Faço a reflexão mais banal de todas: é mais fácil dizer que fazer, é mais fácil dar palpites, entre a teoria e a prática existe um fosso, que tem alturas que parece intransponível, que só damos o valor a certas coisas quando não as temos.

Quero andar, quero andar devagar entre folhas caídas a ouvir os estalos das cascas das árvores, quero sentir o frio na cara adoçado com o sol de inverno, quero respirar o salobro do rio ou a maresia, quero caminhar ao lado de alguém, quero…

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Agora é que chega a sexta-feira!

Se tudo correr tudo bem será a última sexta-feira amarrada á cadeira de rodas, começo a chegar á exaustão de estar parada, para a semana mal ou bem, com uma ou duas muletas, com bengala, ao pé-coxinho, a coxear, seja lá como for começo a adoptar a posição vertical, embora não possa dizer que não tenha um pouco de receio.

Neste tempo ganhei algumas coisas, um pouco de estima por mim, raiva às calças de fato treino, a conquista de alguém para me ajudar a manter a casa limpa, um pé com um tamanho diferente do outro que me dá uma assimetria original, um vasto conhecimento em matérias variadas conforme os documentários históricos ou sobre a natureza, a certeza que era uma boa detective depois de ver vários CSI’s, se já gostava de banhos fiquei convencida que é um luxo, um privilégio, e fiquei muito mais a par das noticias e isso é que é uma gaita, não costumo ser desinformada, mas acabo por dar uma importância relativa a certas coisas, neste tempo acabei por ver mais noticias e deixo aqui algumas que me tocaram:

Comissão Parlamentar sobre a Corrupção - Tomou posse, com prazo de seis meses para produzir um documento, normas, propostas, medidas, uma coisa dessas, para combater a corrupção. Espera-se que não faça um estudo sociológico mas algo de concreto. O quê? Não Sei! Podem ser convidados alguns especialistas, ocorrem-me alguns nomes: o Pedro Caldeira deve estar disponível, uma serie de rapazes com experiência ligados á história da construção do aeroporto de Macau, e mais uns quantos.

As cheias, os ventos, as neves e afins – As cheias foram, são e infelizmente devem de continuar a ser o espelho do país sem estruturas básicas. Os leitos dos rios e ribeiras estão sujos, a construção em sítios impróprios e desaconselhados impera, os meios de socorro, auxilio, para limpar a neve, são todos insuficientes e desadequados, tais como são os dos combates de incêndio. Só consigo lembrar-me da voz do meu pai dizendo que isto era um país de brincar “Chove dois dias há cheia, não chove dois dias há seca”. O caricato vai ao ponto de uma cidade ficar sem agua em consequência de a barragem que a abastece ter subido muito rapidamente o caudal. È claro que não é tão linear mas é caricato.

Por fim continuam múltiplas coisas a não funcionar, desde a justiça sobre as mais variadas formas, começando pela social, o bom senso e o observatório do aleitamento, não me perguntem o que é, nem para o que serve…

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Histórias de Amor muito mal contadas – Branca de Neve



A primeira noção que temos de amor para além do ninho familiar é dada através das histórias, contos de Fadas, histórias da Carochinha, os ingredientes básicos são quase sempre os mesmos: Princesa ou menina linda, madrasta ou bruxa má, um, ou mais, personagem auxiliar simpático, um príncipe, um beijo e o final “viveram felizes para sempre!”, embora eu não acredite!

Por exemplo a Branca de Neve, linda, perseguida por uma madrasta vaidosa, acaba por fugir com a conivência do caçador que estava encarregue de a matar, refugia-se no meio da floresta com sete anões mineiros, caí na armadilha da maçã (outra vez as maçãs) e fica num sono eterno e é despertada por um beijo apaixonado.

Para já o Príncipe no mínimo era parvo beijar um cadáver e apaixonar-se pelo seu aspecto parece-me digno de patologia mental, olha um filho meu chegar a casa e dizer “Vi agora uma morta que é a mulher dos meus sonhos!”

Depois, nunca percebi a madrasta, com as facilidades da Corporacion Dermoestetica fazia um facelift, porque a outra na floresta a lavar roupa de mineiros e a limpar a casa, depressa deixava de ser tão radiosa. Depois essa coisa dos anões é estranha, eram sete e da mesma mina tiravam diamantes, esmeraldas, rubis, o que já por si é esquisito, mas viviam assim numa cabana, desconfio que sem água canalizada, saneamento ou electricidade, escondidos na floresta, cá para mim eram contrabandistas ou de um ramo da Al Qaeda.

A Branca quando se instalou ocupou só as sete camas, ou eram anões muito pequenitos ou ela era rapariga que dava para jogar na NBA, depois disso onde passou ela a dormir? Já agora os anões não foram muito bonzinhos ela ficou mas foi em troca da lida doméstica.

Depois já se sabe, morde a maçã envenenada, também não devia muito á inteligência, fica-se, fina-se, estica o pernil, apaga-se. Os anões constroem um caixão de cristal (outra coisa estranha) o Príncipe encantado aparece beija-a e ela acorda, borrifa-se para os anões e vai embora!

Também nunca percebi os maus se as querem matar, assumam, um tiro, uma flecha ou uma facada, agora é só coisas tortuosas: uma roca ou uma maçã envenenada, coisas pouco práticas, parecem as coisas que fazem ao 007, um acido a corroer uma corda para cair num fosso de tubarões, está-se mesmo a ver que aquilo acaba por não dar.

Falta contar o resto, ela tinha um tom de voz irritante, o Príncipe passava o tempo que podia a andar a cavalo pelas florestas, ela recriminava-o sempre “O Atchim acompanhava-me a todo o lado” “O Rezingão servia-me o pequeno almoço” “O Feliz trazia-me uma jóia nova todos os dias….” “ÈS GRANDE MAS NÃO ÈS GRANDE COISA”

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Chuva e prazos


Lúcia acorda, acorda com as vozes dos locutores, cheios de alegria a jorrar entre as ranhuras do rádio despertador de números luminosos verdes e que lhe lembram que por muito que a chuva caia sobre o chão, por muito que lhe apeteça ficar um pouco mais entre os lençóis tem de ir, levanta-se calça os chinelos de quarto entra na casa de banho senta-se na sanita, passa para o duche evitando sempre confrontar-se com a outra mulher, desgrenhada e de olhos semicerrados que também finge não a ver do outro lado do espelho. A água pelas espáduas dá-lhe aquela sensação de conforto sempre boa, sai do duche quase com a mesma vontade que saiu da cama, abre a porta do quarto do filho e diz-lhe que são horas, em troca recebe o resmungo habitual, veste-se, enxuga-se, opta por uma saia prata e uma blusa de malha, a gabardine dos saldos do ano passado, a mala, o saco com uma fruta, o chapéu-de-chuva, abre uma amostra de perfume, mira a outra ao espelho, e pensa “Estás muito bem para uma bancária quarentona, divorciada!

Volta a lembrar o adolescente meio morto que está na hora, pede-lhe para se vestir de acordo com o tempo, deixa-lhe as moedas em cima da mesa, junto aos cereais, entra no elevador “Bom dia Dª Lúcia, lá vai para a labuta?” “Têm de ser Sr. Fonseca”

Na esquina o autocarro enche-se de gente, como se as pessoas, todas com sono, todas meio a dormir, fossem devoradas, dá uma corrida, se entrar neste autocarro talvez consiga entrar no barco das dez para as oito, consegue. No barco olha as caras de todos os dias, cumprimentam-se com olhares de reconhecimento, o rio lá fora está cinzento, pela perna uma comichão de insecto “Porra! Uma malha nas meias!”, discretamente olha, é por dentro das botas, “Ainda bem!”, humedece o indicador e passa pela malha, procura verniz na mala, discretamente toca aquele começo de malha com verniz, pensa que faltam três dias para receber, duas semanas para acolher na sua casa a mãe que é trespassada de uns filhos para os outros, sem saber nunca onde está e que lhe pergunta “Como se chama menina?” “Sou a Lúcia!” “Tenho uma filha que se chama Lúcia, muito bem casada, que engraçado…”, um mês para que o filho complete dezoito anos e deixe de ser legalmente responsabilidade do pai, que a pouco e pouco se foi distanciando, ocupado com outra mulher e outras crianças, seis meses para o subsidio de férias, talvez vinte anos para ver o rio lá fora cinzento e esperar por outro prazo qualquer.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Dia de Reis!


Dia 6 de Janeiro é dia de Reis, supostamente de cantar as Janeiras de porta em porta em troca de um copo de qualquer coisa, uns frutos secos ou uma fatia de bolo-rei. O que se canta é elogio e critica em simultâneo, nessa altura guardam-se os presépios e os enfeites de Natal, leva-se mais um bolo da quadra para casa, em Espanha é nesse dia que as crianças recebem os presentes.

Supostamente os Reis Magos, que se chamam Magos cá e Sábios noutros países começaram a seguir a estrela até alcançarem a manjedoura, onde ainda se encontrava a família, com o burro, a vaca e o menino. Ofereceram-lhe ouro, incenso e mirra, prendas dignas de um Rei, embora ache que era mais prático outras coisas, sei lá, outra montada, agasalhos, um tecto condigno, uma bolsa de estudo, mas isto sou eu, que até já devia de saber que uma das partes importantes de todas as fábulas é não fazerem sentido, de qualquer das formas uma das coisas mais constantes de mim é esta mania de questionar…

Adiante, o Dia de Reis faz-me lembrar a minha avó que elaborava mais uns mimos para o dia, os Monty Pyton no filme a Vida de Brian, que se inicia justamente com o engano dos Reis Magos que se dirigem á manjedoura onde Brian, filho de uma prostituta acabou de nascer e fazem-me lembrar uma anedota contada entre mulheres:

Se fossem três rainhas em vez de Reis, como seria?!

Bom em primeiro lugar limpavam a manjedoura, corriam com os animais para não estarem tão perto do recém-nascido, enfaixavam Maria para o ventre voltar ao lugar, aplicavam-lhe unguento para as estrias e faziam-lhe uma canjinha, tudo coisas mais úteis. Depois de partir iriam comentar umas para as outras:

Tu já viste a diferença de idades? O José parece pai dela!

E aquelas sandálias que não combinam com a túnica?!

Mas vocês reparam que o miúdo é giro mas não é nada parecido com o José……….