domingo, 31 de maio de 2009

Nalgum local eu existo

Nalgum local eu existo de outra forma e transporto-me para a vida diária.
Não sou dada a fantasias, sou pratica em muitos aspectos, desenrascada, um dos motes foi-me ensinado pela minha avó “Uma mulher enrascada é pior que um homem bêbedo!”
Tive uma infância feliz quanto baste, com alguns acasos e magoas infelizes, adolescência também, tive períodos absolutamente banais da minha vida já adulta em que a vida parecia seguir carris direitinhos. Invariavelmente, eu também escolho outros caminhos ou mudo a agulha dos carris.
O meu dia a dia não é recheado de alegrias, passarinhos e flores, mas também não é recheado só de mágoas, coisas árduas e chatices.
Aprendi, acho eu, a rentabilizar a vida.

Amanhã é o funeral de uma amiga de infância, começámos aos 4 anos a praticar ginástica no Barreirense, a mãe dela ensinou-me a calçar os soquetes sozinha!
Começámos a trabalhar no mesmo dia, no mesmo sítio, andámos na mesma escola, sei mais ou menos inventariar os seus namorados. Entrou num concurso de beleza na adolescência com fotos tiradas com um biquini meu!
Depois a vida seguiu o seu curso trivial, encontrávamo-nos normalmente, da última vez trocámos banalidades de mãe de adolescentes.
Ontem aproveitou o calor e foi à praia, baixou-se para fazer uma festa na cabeça de uma criança, caiu para o lado! Morreu! Amanhã exéquias.
Afinal é tudo tão efémero, inseguro e transitório.
Se mais nada tiro disto, sei que no fundo tenho de guardar e apreciar todos estes múltiplos prazeres, pequenos e infinitos, um dia de sol, uma flor vibrante, um afago, uma conversa trivial, aprender qualquer coisa nova como calçar sozinha os soquetes, afagar a cabeça de uma criança, sorrir a alguém porque sim e sorrirem-me de volta!
No tal local onde existo de outra forma, ela existe com o seu cabelo louro, na praia num dia de sol a sorrir para afagar a cabeça de uma criança!

sábado, 30 de maio de 2009

Imprescindível


Das vezes em que morres entre as minhas coxas
Das vezes em que passas assim com a mão
Ao de leve e com firmeza
Das vezes em que beijas esconderijos
Sussurras palavras só nossas
Ficamos com cheiros trocados
Com sal fininho a arranhar a pele
Porque são assim salgados os beijos
Porque é assim salgado como o mar
E não se gasta no tempo porque cada
Beijo é único
Cada carícia, também
Imprescindível

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Assim


Que lixem os compromissos atulhados ás cavalitas uns dos outros!
A Agenda autoritária e arrogante.
Não quero saber agora dos gritos insistentes dos telemóveis.
Subo a Serra da Arrábida, paro na estrada de cima, vejo o mar com aquela cor única entre o verde e azul, a Anicha, o Convento branco de doer a vista, há pássaros a chilrear, borboletas de cores vibrantes, flores incandescentes, cheiros estranhos de ervas e ruídos estranhos entre o mato, o sol morde-me a pele em dentadas amorosas.
E sabe bem, muito bem mesmo.
Por um pedaço desligo, não há rádio, os telemóveis ficam no carro, não olho para o relógio, fico com a bateria carregada.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Rotulos!



Mal nasci rotularam-me: fêmea, cinquenta e tal centímetros, três quilos e qualquer coisa, Ana.
Depois fui tendo outros rótulos:
Filha, neta, sobrinha, prima, irmã, cédula número tal, portadora do bilhete de identidade número tal, aluna, colega, amiga, contribuinte, sócia, colaboradora, eleitora, funcionária, membro, namorada, amante, ex-namorada, sócia, condutora, titular, delegada sindical, querida, beneficiária, utente, esposa, mãe, cunhada, nora, doente da cama número, órfã, tia…
Nos rótulos seguem-se percas e ganhos…
Embora haja dias que desejasse ser anónima!

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Álbum de Família 5


Esta sou eu com 17 anos.
Este gesto de mão na face ainda me é comum, bem como este abstrair não sei muito bem para onde, quer dizer por vezes sei perfeitamente.
Nesta altura era mais fechada, aliás tinha a estranha mania que estava num degrau inferior a toda a gente. Também achava que era feia, sentia-me sempre a mais.
Curei-me, mais ou menos.
O cabelo exibe esse ondeado exactamente porque me achava feia e a moda eram os caracóis, o cabelo é tão liso que uma permanente apenas me dava esse aspecto de mais ou menos ondulado. Também me curei das permanentes, deixei mais ou menos essa rapariga crescer e ser a mulher que é hoje e ao cabelo dei-lhe a mesma primazia, não vale a pena inventar muito, cortar mais ou menos, com ou sem elástico, de resto ele faz o que quer.
Lembro-me do local, da companhia, do blusão, do relógio.
Não me lembro do que estava a pensar!

Passos trocados!


Sou despistada em certas coisas, muito mesmo.
Uma das minhas características é não ter sentido de orientação, perco-me com uma facilidade incrível, por um lado porque me distraio, por outro não sei.
Vestir camisolas do avesso, andar todo o dia com umas calças de malha também do avesso ou calçar sapatos diferentes não é fora do comum em mim.
A primeira vez que fui a conduzir para Lisboa, a família entrou mais ou menos em pânico, para além desta minha característica, a carta de condução era recente.
O meu tio explicou-me, fez-me uns esquemas e queria ir comigo. Não podia, o meu carrinho era um Micra, a tarefa era ir esperar o meu cara-metade ao aeroporto, a mala não cabia na exígua bagageira, teria de ser transportada no banco traseiro.
Fui sozinha, nevoeiro cerrado, enganei-me na saída, dou por mim com placas indicadoras da distância que me separava do Porto…
Saí em Santa Iria da Azóia, retornei a auto-estrada para Lisboa, fui mais ou menos seguindo os aviões que aterravam, consegui chegar ao terminal de cargas e descargas do aeroporto da Portela, dou mais meia dúzia de voltas á procura do aeroporto com o dito cujo mesmo frente a mim.
Estacionei mesmo a tempo, quando ele sai do avião, ali estava eu.
Então sempre deste com isto?!
Respondo com um ar superior: Estou cá não estou!
Eu sei que existem aqueles aparelhos irritantes, GPS’s, onde a menina vai dizendo para virar á esquerda ou á direita, fazer inversão de marcha e mais não sei o quê.
Ainda assim prefiro seguir os meus passos, ainda que baralhados!
Porque no fundamental, não me engano!

terça-feira, 26 de maio de 2009

Desamor




Ultimamente tenho sido confrontada com casos de desamor, são pessoas próximas, amigos, familiares, que se vêm confrontados com desamor unilateral.
Se não deixa de ser complicado, mas exultante o processo de quem se apaixona, porquê aquela pessoa, porquê naquela altura, o que faz de uma pessoa o objecto do nosso desejo, porque ficamos com borboletas no estômago, um andar dançarino, vemos o mundo mais brilhante, encontramos coisas belas em todo o lado, nas ervas que crescem entre as pedras, nas nuvens, nos raios de sol.
No entanto o reverso é sombrio, já sofri de desamor, fui eu que deixei de amar, de repente, ou nem tanto de repente, o sorriso que achava encantador, o tom de voz que me encantava, o toque que me desassossegava, tudo isso passou a enfadar-me, a irritar-me, o respirar e o tom quase insuportáveis.
Mas agora assisti ao outro lado, ao lado onde até agora nunca estive, pessoas que amam e são rejeitadas, mas continuam a amar. Desesperadamente e apaixonadamente, sem retorno.
Carregam uma tristeza, perguntam-se vezes sem conta onde falharam, o que deviam ter feito, o que deviam ter dito, onde é que erraram.
Encontram rastos do outro em tudo, tal como os que se apaixonam, mas ao contrário.
Tudo lhes parece cinzento, um pesadelo de onde querem acordar.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Álbum de família 4


Estes são os meus avós paternos.
Nesta foto a minha avó está grávida do meu pai, o terceiro filho, teve mais dois depois dele.
Quando morreu, aos 26 anos, ainda o meu pai não tinha dois anos, tinha tido cinco crianças.
Sei que era perdidamente apaixonada pelo o meu avô, o meu avô bateu na mesma tecla até ao final da vida afirmando sempre que também era apaixonado por ela, a sua pantera, como ele dizia.
Tal facto não o impediu de casar pouco depois da minha avó ter morrido, ter mais três filhos, tios com quem partilho afinidades e uma ternura quase envergonhada.
Do casamento dos meus avós ficaram duas crianças, o meu pai e a minha tia. O meu pai nunca teve memória da mãe, a minha tia recorda o funeral no dia em que completou cinco anos. Os outros não sobreviveram, duas de doenças infantis, uma morreu juntamente com a mãe no parto.
Toda a vida o meu avô, as irmãs e primas da minha avó, reconheciam em mim múltiplos traços dela, não sei, sei que eu e a minha irmã temos um cabelo liso e escorregadio como era o dela, sei que todos os primos herdaram o nariz do meu avô, os lábios cheios também, uns mais que outros e o tom moreno.
Eu herdei também o nome da mãe dos meus tios como segundo nome.
Tenho esta foto, uma pequenina, a do casamento, algumas histórias da paixão que os unia testemunhada por muitos que já cá não estão.
Nesta foto acho que têm um ar feliz!

domingo, 24 de maio de 2009

Um barco como uma casa Uma casa como um ninho


Para quê explicar o inexplicável?
Para quê explicar o voo das aves
O tom de algodão puro das nuvens
A vertigem de querer
De não querer
A vontade de mudar o mundo
De mudar de sitio
De estar no mar e em terra
De adorar a noite e desejar o dia
Querer partir e ao mesmo tempo ficar
Querer porque se quer
O que vemos e tudo o que desconhecemos
De sentir um amante como um amigo
Que nos derruba como num assalto
Um amigo como um irmão
De sentir um barco como uma casa
Uma casa como um ninho
Um ninho como um mundo
O Céu como tecto, a terra como chão e
Um abraço como um porto

sábado, 23 de maio de 2009

Hoje fomos mesmo nós!


Cada vez que existe uma acção de contestação ao Governo, seja por causa do fecho de um centro de Saúde, de uma maternidade, seja porque alunos de uma escola secundária adjectivam de fascista o Primeiro Ministro, seja a Manifestação de uma central Sindical, de um sindicato ou o arremesso de água e palavras duras a um qualquer candidato europeu, sempre que isso acontece, automaticamente diversos políticos, membros do governo e comentadores apontam o dedo ao Partido Comunista Português.
Por outro lado também é certo e sabido, que segundo essas pessoas, o Partido Comunista Português é uma coisa pré histórica, uma organização composta no essencial por população sénior, sendo vaticinada a sua extinção, a curto prazo, que me recorde para aí há vinte anos.
Tal contradição espanta-me sempre!
Decidam-se! Ou estamos vivos e a mexer ou em fase terminal.
Hoje, provou-se, outra vez, que não estamos na tal fase terminal. Fomos uns milhares a desfilar! Segundo a comunicação social 85 mil!
E não estávamos lá todos! Só no círculo próximo em dois minutos contabilizei pelo menos uma dezena que não estava lá por motivos diversos, se estender este exercício, faltaram muitos.
Não existia espectáculo musical! Não foram pagos almoços e passeio!
Mas apareceram, de Norte a Sul!
E devem estar todos tão ou mais cansados que eu, até porque a muitos deles falta uma viagem de várias horas de regresso a casa.
Mas, desta vez, podem dizer que sim, foram os comunistas!

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Que dia é hoje?! Sexta-feira!

Que dia é hoje?! Sexta-feira!
Pois a semana passou, outra vez, como um enxame.
Reuniões, reuniões, Actualizações. Contactos. Noticias irritantes. Telefona uma amiga, um rol de desgostos e mágoas. Tem calma! Tudo se resolve! Um Funeral. Uma chamada. Desculpa diz que não, não posso atender. Reuniões. Outra Reunião?! Não posso! O selo do carro. Dê-me um polvo, se faz favor, quero 4 postas desse atum. Desculpe menina mas não sei cortar! Têm de esperar pela minha colega! Não posso esperar. Um tamboril então, com fígado por favor. Aí menina, não têm fígado houve um senhor que os levou todos! Então não quero! Tenho que escrever a acta, fazer os convites e os cartazes. O médico. Pois Dª Ana, está melhor de uma coisa e pior de outra! Vamos ver os próximos exames, mas tem mesmo que abrandar. Um novo bebé! Primo dos primos, um ar de rapazinho e uma vida nova em folha, só gastou dois meses. Não pisem o chão que a mãe acabou de lavar! Comprei lingerie, uma coisa que me levanta o ânimo. Dá-me um beijo. Deixa-te estar assim com a mão no meu cabelo.
Hoje vou ao Hospital e venho de lá outra vez com o coração pequenino! Há um colóquio esta noite.

Amanhã marcho-me para a marcha!
O que me apetecia era ter um quintal com um pedaço relvado e tijoleira aquecida pelo sol, onde eu andasse descalça! Com limoeiro, evidentemente e um canteiro, um pedaço de terra onde eu plantasse alecrim, rosmaninho, alfazema, Doce-Lima e um arbusto de jasmim.
Para ficar ali á noite de pé descalço, música em surdina, uma conversa longa, a contar as estrelas e a embebedar-me com o cheiro do jasmim….

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Lá ao fim da rua....

A Rua era o nosso espaço de brincadeiras, morávamos todos no mesmo quarteirão, ou em quarteirões muito próximos, tínhamos todos mais ou menos a mesma idade, mais ou menos.
Os nossos pais já se conheciam assim de miúdos, nalguns casos os nossos avós.
A zona onde morávamos tinha sido uma quinta, onde o meu pai contava que ia roubar fruta, a Quinta da Cerca, a Casa da cerca ainda lá está.
Brincávamos horas a fio, a tudo, apanhadas, escondidas, eixo, berlindes, tardes a andar de bicicleta, skate. Trocávamos de livros de Banda desenhada, cada um de nós tinha uns quantos, passavam de mão em mão, Asterix, Lucky Luke, Spirou, os outros também, Patinhas, Mónica, Mandrakes.
Quase todos tinham alcunhas ou diminutivos, o Bidu, o Cowboy, a Preta, o Cavalo, o Feto, o Calimero, O Patinho, O Texugo, O Chinês, outras menos dignas…que não vale a pena falar.
Crescemos assim, não éramos betinhos, surfistas, góticos, ou outras coisas, não tínhamos grandes etiquetas a demarcar estatuto social ou a bolsa paterna.
Descobríamos a vida, aprendemos a andar de bicicleta e de patins, a nadar, acampámos, deslocávamo-nos nos mesmos dias para as mesmas praias.
Alguns de nós ainda se cruzam, outros nem tanto, mas quando olho para o fim da rua, num sítio onde existe agora um prédio e onde existiu um espaço livre para brincadeiras e conversas quase que ouço as nossas vozes…

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Álbum de família 3


Esta sou eu no dia em que completei 3 anos.
Deve ter sido das alturas da minha infância em que tive o cabelo mais comprido, porque a minha avó tinha a crença que cortar o cabelo curtinho, tornava o cabelo mais forte, não tornou!
Os ganchos devem ter sido colocados no instante da foto, porque ainda hoje escorregam, herança da outra avó.
Hoje, ninguém tirava a uma foto a uma menina nesta posição, penso eu. A boneca deve ter sido prenda de aniversário, não muito almejada porque eu gostava mais de carrinhos e piões.
Pelo rasto de água devo ter colocado os pés no lago, a minha única tareia de infância foi por isso, colocar as botas em todas as poças.
O vestido era de malha, azul clarinho, ainda o tenho guardado.
As trombas são as mesmas!

terça-feira, 19 de maio de 2009

È salgado o meu país


Gosto do meu País, gosto da costa, das praias de areia fina, das rochas, dos cabos com faróis, gritos alucinados das gaivotas, lotas de peixe, do interior, das matas de pinheiro com caruma pelo chão, gritos de pássaros, gosto dos rios do meu país, prateados com ilhotas, gosto dos castelos, das pedras antigas, não sendo católica até gosto das igrejas, gosto das cidades, das aldeias, das planícies do Alentejo, dos sobreiros, das pedras de Trás os Montes, das serra e dos Vales, dos pomares de cerejas da Beira, de laranjas do Algarve, das vinhas ao correr da estrada, do gado indolente, das casas de pedra acima do Tejo, das brancas caiadas, com barras, azuis e amarelas…

Gosto do cheiro do meu País, a cortiça, a estevas, a mosto, a flores de laranjeira, maresia.
Gosto das palavras do meu País, dos seus poetas, os que escrevem só o que cantam, os que escrevem para ser cantados, por vozes roucas, agudas ou maviosas.
Gosto do som do meu País, a guitarra Portuguesa, a gaita-de-foles, a Bombos e Adufes, Braguesas e Cavaquinhos, a vozes agudas do Minho e arrastadas no Alentejo.

No entanto o meu País tem um defeito, grande, quer sempre despir esta roupagem, ficar igual aos outros, despreza o seu povo, o seu mosto e o seu sal, trata-nos como imbecis, esquece-se que nós somos o nosso País, esquece-se que várias vezes mudámos a sua face, que o pintámos com outras cores, que o obrigámos a acordar.
O meu País precisa de acordar!

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Em tempos


Em tempos o mar era meu
Guardei dentro de mim as tempestades
O cheiro das algas
O toque fugidio dos peixes
Passei a reger-me por marés
Luas
Nesses tempos falavas de coisas fantásticas
Sereias, que eu nunca vi,
Adivinhava só
Outros seres
Homens que subjugavam homens como bestas de carga
Coisas assim incríveis e mitológicas
Depois aprendi que andarás sempre
À procura de Sereias, que não existem
E eu andarei sempre a lutar contra as Bestas
Que são reais
Mas o mar é meu!

domingo, 17 de maio de 2009

Pedaços de um história (3)

Vou ao baile dos Penicheiros, fui tomar banho aos banhos públicos, comprei uma latinha de brilhantina, a roupa melhor ficou a jeito no quarto do meu primo a salvo dos catraios dele com quem durmo no chão da cozinha.
A casa também não tem mais nada, a cozinha com a chaminé e pia dos despejos, o quarto interior onde ele dorme mais a Conceição e o Zézinho que tem dois anos, já houve uma menina depois do Zezinho mas morreu com pneumónica depois de noites a chorar com a Conceição a embalá-la e a chorar também baixinho.
Morrem muitas crianças, tantas como lá na terra.
Estou a ajudar o meu primo a pagar o enterro, do caixãozinho branco que foi para Santa Bárbara.

Talvez hoje esteja no baile a Leopoldina, é alta e desempoeirada, trabalha nos teares com a mãe, tem um sorriso que alumia a fábrica toda cinzenta.
Já trocamos palavras entre risadas dos colegas, trocamos olhares à entrada e à saída.
Vou engraxar os sapatos, foram remendados pelo Paco e depois espero que ela lá esteja.

sábado, 16 de maio de 2009

Pedaços de uma história (2)



O Armindo, ensina-me melhor as letras, diz que podemos mudar o mundo, que tenho de aprender sempre mais, que muito longe na Rússia os trabalhadores juntaram-se com os camponeses acabaram com o Rei e estão a fazer um mundo sem patrões e sem fome.
Cá acabaram com o Rei, depois a uma Guerra, a seguir outra, mas depois de muitas confusões e esperanças, estamos na mesma, fome e miséria.

O Armindo diz que sou as duas coisas, camponês e operário, dá-me para ler jornais fininhos como mortalhas que lemos escondidos na hora da bucha que passamos aos outros disfarçadamente, quando ninguém está a olhar. O meu primo avisa “Cuidado sempre houve patrões, olha que essas ideias só te levam ao Limoeiro”
Depois juntamo-nos á noite com o espanhol, Paco, o sapateiro, ali na travessa Luís de Camões.
O Paco conta-me da Guerra em Espanha, eu ouvi muitas histórias do meu pai, mas o Paco conta mais, conta que veio gente de todo o mundo lutar contra os fascistas, que só venceram com a força bruta. Conta que um poeta foi fuzilado, por ser poeta, corajoso e que fez um verso que Paco repete “Verde que te quiero verde…”, diz isto com um ar solene de dedo no ar e lágrima no olho.
Tem uma foto de uma mulher numa moldura, sei que se chama Mercedes, na foto a mulher morena segura um menino de caracóis, parecido com o Paco.

O Armindo avisou “Era a mulher e o filho, foram assassinados pelos fascistas!”
Quando bebe uns copos Paco canta e eu já aprendi “Ay Carmela, ay Carmela” e outra mais bonita “A Internacional”.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Olha! Já é sexta-feira?!


Záasssssssssssssss
Este foi o som da minha semana, passou a correr, acho que os ponteiros ficaram loucos, pelo menos consegui matar um relógio e outro tenho de o acertar duas vezes por dia porque anda sempre adiantado.
Esta semana foi assim: Febre, dores no corpo, dores de garganta, Reunião, papeis, estendi e apanhei roupa, escrevi umas coisas, fiz um projecto, planeei uma exposição, não me posso esquecer de comprar pão, deixei-me dormir no sofá e acordei com os meus gritos, falei com os mancebos lá de casa sobre exames e testes, fiz outro projecto, respondi a papeis que gritavam espalhados pela secretária, estou cansada, tão cansada, fui a reuniões, refilei, acomodei-me, fui outra vez ao Hospital (e pior parece que já me encaixa na normalidade), tenho de comprar fruta, a fruteira tem menos fruta do que a cresce no Inverno da Antárctida, o cão anseia por uma festa, alguém me desiludiu profundamente, acaba a reunião, que horas são? 23h30! Que se lixe vamos beber um copo e por a escrita em dia, cruzo-me com a cara-metade nas escadas do prédio: onde vais? Outra reunião! Marcas todas para os dias que estou em casa! Mais uma chamada, sim, não incomoda nada! Mentira, mentira. Dói-me a cabeça. Mesas de voto, pois claro. A ver se este fim-de-semana tenho um bocadinho para limpar esta parede. Não me posso esquecer de telefonar. Tricotei, furiosamente. Não te esqueças do mail, do fax, de ligar…Uma massagem com creme nessa pele e ossos maltratados. Obrigado, filha, que bom! O Livro que não consigo ler! A roupa em pilha á espera de ser passada ou dobrada, qualquer coisa. Outra reunião dessas! Um duche, ai que bom sabonete de cedro! O que visto? Espreito á janela, está cinzento, tenho saudades de chinelos abertos e blusas leves, lá tenho que fazer uma Sessão de Arqueologia em roupeiros e gavetas. Cinema, caramba não vou ao cinema há meses. Um relatório?! Está bem, acabo no fim-de-semana. Sim, vou contigo não faz mal. Preciso de trocar os pneus do carro, sábado tenho de tratar disso. Olha as garças no rio! As notícias irritam-me os anúncios também. Que faço para o jantar? Zássssssss é sexta-feira já outra vez!

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Um pouco


Anda estou aqui
Não fugi
Nem me transfigurei
Estou aqui inteira

Segura assim um pouco na minha mão
Brinca um pouco com meu cabelo
Não finjas que não me vês
Eu prometo não fingir também

Partilha assim um pouco de mim

Mais uma….


Tomei o pequeno-almoço calmamente, coisa que é assim rara.
Liguei a TV esquecendo-me que hoje é 13 de Maio, até porque para mim o único significado é ter um jovem nascido neste dia.
Zás, é dia de culto em Fátima.
Assisti à reportagem com a curiosidade que costumo ter, a jornalista, lá faz a reportagem junto à capela das Aparições onde fiéis se juntam a celebrar o momento.
Entrevista um e outro, chega a uma senhora que prontamente interrompe as orações para os seus dois minutos de fama.
-Há quantos anos cá vêm?
-Desde há 4 anos este parte venho cá sempre!
-Foi promessa?
-Sim (sorriso envergonhado)
-Pode dizer porquê?
-O caso é que ele fumava muito e prejudicava-se, fiz a promessa. O certo é que Nossa Senhora fez o milagre e deixou de fumar no 13 de Maio faz hoje quatro anos, estou muito agradecida!
-E é de onde?
-Do Vale do Ave.
-Está preocupada com o desemprego?
-Não, quer dizer, a nós graças a nossa Senhora, nunca nos faltou trabalho. Mas pronto vou pedir-lhe que nos ajude a todos, porque também temos que pensar nos outros, não é?

Conclusão:
Nossa Senhora de Fátima não é patrocinada pela Industria Tabaqueira.
As desgraças que acontecem no mundo, é porque está ocupada em fazer com que alguns deixem de fumar!
Convém a um bom cristão de vez em quando pensar nos outros!
Vou Fumar um Cigarro!

terça-feira, 12 de maio de 2009

Pedaços de uma história (1)

O meu nome é Joaquim Santos, Quim para os amigos, não sabia onde era o Barreiro, só sabia que lá terminava a linha de caminho de ferro.
Enchi-me de esperanças com o fim da Guerra, mas ficou tudo na mesma.

Mas farto de pastar gado e esperar pelas jornas nas colheitas para comer uma bucha resolvi ir, para onde já foram tantos da minha aldeia. Na minha aldeia só aprendi o que é fome, frio e umas poucas letras para assinar o nome. Há-de ser melhor nas fábricas, tenho lá patrícios, no bolso levo uns tostões na cabeça o choro da minha mãe “Vai filho antes bem longe que mal perto, isto aqui é só miséria
Saí do comboio, é tudo grande e diferente da minha terra, tanta gente, ninguém cumprimenta, tenho de saber onde é o Alto José Ferreira, lá mora o meu patrício sobrinho de meu pai, num pátio, não sei como será.
Pergunto a um velhote aponta mais ou menos diz que chego lá, pela rua garotos descalços e ranhosos como na minha terra. À porta da estação um grande grupo de homens, caras fechadas, ar perdido de condenado, vestem todos de igual de azul.
Cheguei à fábrica, o encarregado perguntou-me o que é que sei fazer, baixei os olhos “Faço o que for preciso”.


Fui para os vagons, empurro pequenos comboios cheios de pedrinhas, cheiram mal, o fumo arde nos olhos o peito parece que rebenta, o dia começa e acaba com o apito da fábrica.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

De vez em quanto apaixono-me perdidamente!


De vez em quanto apaixono-me perdidamente, geralmente, um escritor, um poeta, uma música, um livro, um autor, por projectos também, alguns fazem-me tocar as campainhas e fico perfeitamente embeiçada.
Ando apaixonada agora por estas palavras:

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

Mário Cesarinny

domingo, 10 de maio de 2009

Álbum de família 2


Esta foto é interessante porque na época não se tiravam muitas assim espontaneamente, geralmente eram em pose fosse em estúdio ou no exterior.
Este nota-se que é mais espontânea.
Foi tirada no quintal da casa para onde a minha avó materna foi trabalhar em troca de pouco mais que comida e roupa usada da filha dos patrões, pouco mais velha que ela.
Nessa casa a minha avó esfregava soalhos, lavava roupa no tanque, carregava agua do poço e todas as outras coisas que constituíam os trabalhos domésticos, foi também ali que deu largas á sua criatividade culinária, com bons apetrechos e bons ingredientes.
Quando acabava aquele dia de trabalho, dirigia-se a casa, a escassos metros, onde tudo recomeçava, em casa havia uma mãe viúva, uma irmã doente e um irmão muito pequeno, o tal tio que me ensinou o gosto pelo fado.
A minha avó recomeçava, soalhos, roupas, carregar e aquecer agua para os banhos familiares, por vezes ficava de tal forma exausta que já não tinha coragem para carregar água para o ultimo banho, o seu, então aproveitava a banheira do irmão mais novo…
Tenho de dizer que nessa casa a minha avó fez uma amizade duradoura, com a filha dos donos, foram amigas fraternas até ao final da vida, ainda hoje mantemos amizade com uma parte da família.
A minha avó é a rapariguinha sorridente com os pés na água, como se nota as outras estão vestidas de outra forma e protegem-se do sol, a minha avó não, tem o sorriso de quem goza uma pausa de pés na água e face ao sol.

sábado, 9 de maio de 2009

Olha o Passarinho!


De algum tempo a esta parte recebo admoestações para me juntar ao Twitter, da mesma forma que recebo convites para o facebook.
Confesso que à primeira impressão nem uma coisa nem outra buliram comigo, mas acabei por me registar no tal Twitter, pensei “Oh Rapariga tu vê lá que se algum tempo atrás te falassem em blogues perguntavas só-Que raio é isso?”.
Mais ainda, até o Jornal Avante desta semana tinha um artigo sobre o Twitter.
Quero já descansar toda a gente não há orientação nenhuma para os militantes se irem registar em massa.
Até porque se eu dissesse a alguns que deviam de se registar numa coisa com nome de passarinho estou mesmo a ver as reacções:
-Desculpa lá Camarada comigo não contem que já me chegou ter de engolir o sapo da outra vez!
-Oh Ana, tu até podes ter razão, mas já viste camarada, se vamos perseguir passarinhos a malta dos Verdes que é dada à defesa da bicharada pode não gostar e estamos em coligação com eles…
-Queres o quê?! Passarinhos, arranjar, depenar, temperar e fritar passarinhos na Festa do Avante?! Tu não estás boa da cabeça rapariga, deixa estar as febras que a malta isso faz com calma, passarinhos só se for num convívio mais pequeno!

Estou a divagar, a verdade é que estou lá registada, já perdi a password várias vezes, porque entre passwords de mails, PIN de telemóveis e cartões bancários, códigos de alarme, deste computador, das finanças, e mais algumas coisas, números e letras baralham-se e eu bloqueio.
O meu mail avisa-me de várias pessoas que se tornaram meus seguidores a palavra também me incomoda, seguidores tinham os filósofos e os profetas, não me agrada a ideia de ninguém me seguir.
Por fim, o facebook, eu adoro ver os amigos, falar com eles, pode ser por telefone, mensagem, conversação do gmail, Messenger, a melhor de todas ao vivo e a cores, cara a cara, isso sim.
Passarinhos, gostava do Twitter, que o Vasco Granja trazia, tal qual um rebuçado no fim do programa, bicho cruel que tinha como seguidor o gato Silvester que acabava sempre todo estrapicalhado.


Telefonem, mandem mails, apareçam nas formas de conversação supra citadas, vamos beber um café, um sumo, qualquer coisa, é mais giro.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Que se lixe é sexta-feira!


Falta-me algo que não consigo definir.
Os pés ainda me doem, pior num dos calcanhares um bocadinho em carne viva requer um penso e desinfecção, hoje a ideia seria de me embonecar para um jantar, desconfio que vou de sapatos de ténis.
O dia começa cedo, cedíssimo, porque a partir das quatro da manhã os meus olhos abrem como nas noites passadas e resistem a fechar-se, fico assim parada, acordadíssima, a desejar que os minutos andem depressa.
E o dia vai desenrolando-se como um gato, uma coisa daqui, uma coisa dali, umas programadas, agendadas, outras de surpresa.
Consigo colocar ordem na secretária, limpar umas sombras da agenda, marcar um espaço talvez só para mim, deitar um olhinho ao rio, tentar vislumbrar o sol escondido, com muita sorte ir espreitar o mar, cumprimenta-lo, respirar fundo, carregar a bateria.
Hoje é sexta-feira e o dia está cinzento chumbo, com um solzito envergonhado. Eu nunca gostei de chumbo!
Que se lixe é sexta-feira!

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Estupidamente doem-me os pés.

Estupidamente doem-me os pés.
Estupidamente porque verificando o adágio familiar de que sou parecida com o meu pai, fiz o mesmo erro anedótico que ele fez, calcei uns sapatos novos e só a meio do dia descobri que me magoavam porque tinham os cartões lá dentro!
Portanto doem-me os pés, a cabeça também, com uma sensação de ressaca que dura algumas semanas, fruto de noites mal dormidas e preocupações diversas.
Fico meio despida naquela posição incomoda enquanto uma espécie de anel com muitas luzes sobre e desce ao longo do meu corpo, da cabine só dizem “Não se mova, não respire!”
Eu sei que é rápido mas parece eterno.
Aquela aparelhagem faz-me lembrar os filmes de ficção quando era pequena, no Espaço 1999 também viam assim os corpos…

Penso em muitas coisa, apetece-me o mar, apetece-me descontrair, apetece-me um som bom e falar de coisas triviais, apetece-me que alguém me diga que está tudo bem e que tudo vai correr bem, um abraço, apetece-me uma calma que não tenho há muito tempo.
Medem, tornam a medir, não respiro, não mexo, doem-me os pés e a cabeça, os dois extremos, tenho frio, depois acaba “Pode levantar-se”.
E eu levanto-me, levanto-me sempre

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Das árvores de fruto....


Havia um cheiro adocicado no ar, eram as árvores de fruto em flor.
Passávamos horas, sentados nos troncos da figueira, tínhamos um balouço lá pendurado.
O quintal era enorme!
Era uma estepe, um deserto, uma floresta africana, uma pradaria, uma ilha de piratas, o que nos dava na bolha.
Os joelhos tinham sempre uma cobertura alaranjada de mercurocromo, os dias eram longos, bastava uma bola, um monte de berlindes, uma corda ou um pau para ficarmos entretidos, num monte de areia construímos castelos, pastelaria fina e variada, muralhas e trincheiras.
Os dias eram lentos, não como agora, que os ponteiros desvairam e andam a muito mais velocidade que o normal, dou conta agora que as árvores da minha infância, gamboeiros, ginjeira, laranjeira, damasqueiro, deviam de estar em flor.
Já não estão!
Mas no fundo quando não olho, há um quintal cheio de árvores de fruto a florir, guardei o cheiro e umas cicatrizes que o mercurocromo não curou….

terça-feira, 5 de maio de 2009

Álbum de família 1


Esta é uma foto de família!
Trata-se da foto do Grupo de Cordas do meu bisavô, faziam serenatas.
Como se pode constatar tocavam violas, banjos e guitarras Portuguesas.
Ainda me lembro dos restos mortais do bandolim do meu tio-bisavô Artur, o vagabundo, na casa da minha avó.
Um desses rapazes de bigodes era o meu bisavô, pai da minha avó materna, mais á frente sentada está a sua noiva, a minha bisavó, acho que ainda não eram casados.
Mais tarde ele irá abraçar as causas Republicanas, depois o Anarco Sindicalismo, irá comprometer irremediavelmente a sua vida profissional com essas opções, irá morrer muito jovem, a família irá ficar numa estrema pobreza, a minha avó irá trabalhar muito novinha em troca de comida e de roupa usada, nesse trabalho ficará cega de uma vista.
Aqui ainda nada disso aconteceu, são apenas um grupo de músicos amadores, com as noivas, as mulheres e os filhos.
Gosto muito desta foto!

segunda-feira, 4 de maio de 2009

A gripe Suína e o Vitalgate

Nos últimos dias a Comunicação Social tem sido entupida com a Gripe Suína e o Vitalgate. Dois assuntos muito diferentes ou talvez não.
Quanto ao primeiro, a gripe suína, eu que não sou técnica de saúde, cientista ou afim, mas ocorre-me muita coisa: as modificações na cadeia alimentar animal, principalmente animais criados industrialmente para consumo humano, com a introdução de antibióticos, cereais transgénicos, restos de outros animais, têm consequências inesperadas. Esta coisa de estarmos sempre a modificar a natureza é pouco razoável.
Mas, para além disso, estranho é aparecerem estas epidemias e pandemias mesmo a servir interesses farmacêuticos e com principal incidência em certas áreas do globo, digamos mais desfavorecidas, ou também poderemos dizer onde os grandes lobbies da industria farmacêutica têm caminho aberto para experiências variadas com a capa de acções humanitárias.
Coincidências?! Juro que não era assim tão desconfiada mas começo a achar que coincidências a mais não são fruto do acaso.

Depois o Vitalgate. Eu estava lá, não insultei, não molhei (até porque estava calor e cada duas garrafitas era um euro), mas vi, in loco, sem montagem ou edição.
Vi o sorriso de Vital, vi que enviar um representante do Partido Socialista, cabeça de Lista ao Parlamento Europeu, useiro e vezeiro em aparecer em tudo quanto é sitio a glorificar as acções do governo, que ainda algumas décadas atrás defendia o contrário e agora fez esta pirueta, é arriscado.
È mais ou menos como enviar um caçador artilhado a uma manifestação da Greenpeace ou da PETA. Digamos que é pôr-se a jeito.
Se a maioria dos milhares de desempregados, trabalhadores com a espada sobre a cabeça, trabalhadores a quem o salário não chega, precários, com salários em atraso, reformados com pensões miseráveis, se essa maioria que ali desfilava dando brado aos seus direitos agiu com desprezo e indiferença a tal presença, alguns houve que não se controlaram e acharam uma ofensa aquele personagem, exactamente aquele, aparecer ali.
Não concordo com agressões, sou pacífica. Mas não vi murros nem pontapés.
Vi: assobios, apupos, insultos verbais, alguns que o tentavam agarrar pelo braço e sim, água arremessada. Vi também os membros da organização da manifestação pedirem para os manifestantes não o fazerem, vi também membros da organização tentarem garantir a segurança da Delegação PS.
Depois disso temos uma bola de neve, afinal foram os comunistas, já há quem ache que o PCP deve pedir desculpas, expulsar militantes, retratar-se, etc. Já se sabe que em Melgaço também os mesmos malandros assobiaram o Primeiro Ministro e há até quem garanta que arremessaram um, copo de vinho Alvarinho (que desperdício!).
Portanto temos que nos decidir ou os comunistas estão em vias de extinção, fosseis com a mania que estão vivos ou pelo contrário, estão vivos e movem montanhas porque conseguem mobilizar esta gente toda.

Estou á espera ainda que o Benfica exija um pedido de desculpas ao PCP pelos apupos recebidos no aeroporto, porque de certeza que têm a culpa…
O que me apetecia agora era uma bifana na Festa do Avante.

domingo, 3 de maio de 2009

Quanto Baste!

Agora segue a linha das minhas coxas
O sabor não é exótico, é só o meu
A tua mão não é diferente, é só a tua
Reinventamos milhares de vezes, em cada vez
O sabor é sempre assim especial, diferente e único
Igual, porque é o nosso
A combinação exacta da alquimia
Da fome e da sede
Do desejo e do querer
Da presa e da calma
Do desconhecido
Uma coisa complexamente simples
Estranhamente familiar
Invulgar porque nunca banal
Saborosa, porque é assim, quanto baste
(imagem gentilmente cedida pelo Toxico do Blogue "Não Asses Mais Carapaus Fritos", outro Camarro)

sábado, 2 de maio de 2009

Esta sou eu, mãe!



Hoje o meu filho mais velho tem 19 anos e é um jovem universitário.
Demorou três dias a abandonar o meu corpo, quando o conseguiram retirar, a fórceps, estávamos os dois extenuados e em sofrimento.
Começámos a sua vida a passar um mau bocado.
Nesta foto ele tinha cerca de dez meses, pouco tempo depois fazia a encomenda do segundo filho. Uma opção sensata!
Ainda sinto cheiro dele a bebé, ainda me lembro do ritual de boas noites: um abraço, dois beijos e um “digo-digo”, ou seja um esfregar de narizes, seguidos todas as noites de um “Boa noite Mãe Esquilo!” “Boa noite Filho Esquilo!”.
As espécies animais variavam conforme os seus interesses, fui mãe ornitorrinco, foca, suricata, bichos da sua preferência.
Ainda hoje, grande, alto como um eucalipto, com uns pés enormes, a barba que o mando cortar, é meu esquilo, ornitorrinco, uma das minhas crias.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

As margens

Vamos no carro, não é por irmos que as outras coisas ficam para trás.
Nós vamos, nada mais. As coisas ficam.
Há animais mortos na berma da auto-estrada, cães, gatos, no separador há arbustos, loendros, brancos, rosa, fúcsia, alguns quase árvores.
Há estevas, flores bravias, umas explosões de cor de uma papoila que deixou ali sementes para que na Primavera florescessem um molhe de filhas numa explosão rubra de tenacidade e vermelho.

Há arvores, sobreiros, ciprestes, pinheiros mansos e bravos, mimosas em flor, cavalos e ovelhas a pastar em cercas, há uma faixa tosca pendurada no viaduto onde um tal de Daniel proclama o seu amor por uma Rita, eu espero que o amor seja mais forte que as cordas frágeis que prendem tal declaração, explorações suínas que deixam um cheiro pungente a esterco, há vivendas, algumas bonitas, outras foleiríssimas, há fábricas e armazéns, montes de cortiça, um Centro Comercial que promete alegria, preços baixos e divertimentos.
Depois há o Rio, lindo, largo e a música escolhida é bonita, tem um cheiro de tango, de violoncelo, de piano, combina com o Tejo, não sei se combina comigo, acho que sim, sabe-me bem.
Vou uma vez mais manifestar a minha inconformidade, junto com muitos milhares, é bom. Dou abraços e recebo beijos de quem já não via há muito tempo, também de outros que vejo mais amiúde, recebo carinhos solidários, um cravo rubro, um galanteio de um jovem de setenta e muitos anos.
Subimos a Alameda naquela irmandade solidária e teimosa. Comemos uma sardinha no pão e partimos até chegar outra vez, mais uma vez, ao Hospital do desassossego, onde a morte e a vida são medidas em gotas, em silêncios, em gemidos, em percas e os minutos parecem horas, apesar dos melros que cantam entre as árvores do Parque de estacionamento.
Volto para o carro e quero deixar tudo para trás, outra vez, voltar a passar para a outra margem.
Como se fosse possível despir estas coisas, só por mudar de margem, como se não existissem Rios, pontes e até pequenas cordas frágeis a uni-las.