quinta-feira, 30 de abril de 2009

Se alguém souber....


Faço o chamado acto de contrição. Acho que é assim que se chama não é?
Nunca roubei, nunca matei, não invoco o nome de ninguém em vão, não torturo animais, plantas, seres, se amar Deus sobre todas as coisas será amar a vida sobre todas as suas formas, então faço-o.
Juro que nunca cobicei a mulher do próximo.
Costumo gostar dos outros como se de mim própria, embora apanhe grandes decepções, mas de uma forma geral confio na humanidade.
No entanto, Deus, Jeová, o karma, ou simplesmente a grande rameira que é a sorte tendem a bafejar-me com obstáculos vários.
Galgo um, aparece outro, consigo emergir de uma onda poderosa daquelas de rodopio, vêm outra, maior, com mais força.
Tanta gente neste planeta porquê a mim?
O Sacana de serviço não podia distribuir isto de outra forma?! Não!?

Ainda Cheira



Fiz este video porque:
Ainda é necessário colocar pauzinhos na engrenagem!
Ainda é necessário apelar á participação!
Ainda é necessário construir uma vila, uma cidade, um país, um mundo, em que cada rosto espelhe a igualdade, que seja uma terra de fraternidade!
E depois ainda não dissemos Adeus, dizemos que é possivél.
Eu acredito.
Há por aí mais alguns liricos como eu?





(Publicado também no blogue Colectivo Cheira-me a Revolução)

terça-feira, 28 de abril de 2009

Palavra, apetecia-me!




Juro que me apetecia escrever sobre coisas bonitas!
Palavra!
O mar, os pássaros, os risos das crianças, os raios de sol, mas sinceramente não consigo.
Vi mais TV do que é hábito, costumo passar muito tempo nos canais de documentários, filmes e séries, mas no entanto parece que estou num carrossel maluco porque tendem a repetir tudo, os dos documentário mostram tanta vez o acasalamento das focas que já me parece uma Sessão porno do Olímpia Zoológico, as séries e filmes também.
Acabei por ver as noticias, erro fatal, fiquei a saber que a ministra da Saúde garante que todas as medidas necessárias estão a ser tomadas nos aeroportos nacionais, no que diz respeito à nova epidemia da gripe suína, no entanto uma amiga chegada ontem garantiu-me dez minutos antes, que chegou ao país sem que nada lhe fosse questionado, se tinha febre ou tosse ou fosse o que fosse; fiquei a saber igualmente que Portugal já tem um cão treinado contra a pirataria de cd’s e dvd’s, achei o máximo, terão odores diferentes?
Por fim ao intervalo um detergente homónimo com um governante Israelita promete que se os lençóis forem por ele lavados, não há casal que se deite zangado…
Fiquei nauseada, mais vale um livro, um disco, um dvd mesmo pirateado, que o canídeo cá de casa está-se nas tintas, ou as actividades sexuais das focas, borboletas e escaravelhos.

Uma certa irmandade....

Voltar a encontrar-te faz trabalhar os carretos da memória, de repente lembro-me de pequenos episódios.
Lembro-me de passares os intervalos da Secundária a falares de Bakunin ou Trosky, das tuas teorias envolvendo explosões, de uma rebeldia inata que tinhas, que muitos atribuíam ao facto de seres “acelerado”, alcunha que se te colou.
Lembro-me de me introduzires em Romances de Ficção Cientifica que me emprestavas, sempre num ambiente Medieval Fantástico, que acabou por definitivamente me empurrar até me apaixonar pelas Lendas Arturianas como passatempo e o papel das mulheres nelas.
Lembro-me que na segunda feira a seguir à Festa do Avante depois de um fim de semana de alguns excessos etílicos e experiências gastronómicas, vinhas entusiasmado com o prato de carne e esparguete que a tua mãe preparava, sempre nas segundas feiras da Festa do Avante.
Lembro-me de outras coisas, discussões eternas, filosóficas, musicais, com gente muito diferente, horas no tal banco de jardim, num café, na muralha.

Eu era a mais nova, absorvia tudo como uma esponja!
Lembro-me de partilharmos certos gostos musicais, de ver o Dune por tua causa (filme que tenho e revejo), mas de não ter percebido nada da primeira vez que o vi, porque fui vê-lo ao Teatro Cine a um domingo o que significava que a máquina já tinha trucidado desde quinta feira uns bons quarenta minutos de película. Não faz mal, vimos juntos, com explicações tuas, no Fritz Bar, a mandar toda a gente calar-se porque o filme, cassete Beta, não tinha legendas.
Há muito mais coisas que me lembro, de te ter forçado a ver Xutos e Pontapés à torreira do Sol na Ajuda e teres sido o único que achou que sim, enquanto o resto gritava que a miúda era maluca que o Grupo tinha um nome que não lembrava a ninguém…
Um último episódio, também na Ajuda, não sei se te lembras, de um fulano perdido de bêbedo que se acoplou ao nosso grupo e tentava desesperadamente emparceirar com uma das raparigas. Não sei porquê baptizamo-lo de Zebra e a cada uma para qual ele avançava, havia um membro do grupo que o enxotava dizendo “É a minha namorada!”, quando chegou a minha vez, o meu namorado já tinha reclamado outra, tu disseste “É a minha irmã!
Só um ébrio para acreditar que os teus olhos azuis e cabelos louros fossem irmãos dos meus castanhos escuros….
Mas sim, de certa forma temos uma certa irmandade, e é muito bom reencontrar-te.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Quando

Se a morte vier baixinho
Que me leve de uma só vez
Não me mate aos pedacinhos

Não me mate em fatias
Seja rápida e célere
Não lhe peço mais nada

Não me mate a memória
Não me mate os prazeres
Não me mate a alegria

Que me leve a mim inteira
Assim como sou
De uma só vez

domingo, 26 de abril de 2009

Faz-se




Assinalou-se de múltiplas formas, pessoais, oficias, emocionais, de frete, de calendário, de amor, de desengano, de esperança, de festa, os 35 anos do 25 de Abril.
Nalguns sítios assinalaram-se outras coisas, como em Santa Comba Dão e na Região Autónoma da Madeira.
Mas a verdade é que se foi necessário um longo caminho até se chegar à clara e promissora madrugada de 25 de Abril de 1974, terá de se continuar a caminhar e como tal a construir esse caminho.
Numa altura em que a tecnologia alcança um avanço e uma abrangência espantosas, que há escassas décadas seria apenas de ficção científica, também a humanidade alcança um vazio e uma falta de expectativas.
A falta de esperança, as desigualdades sociais, a frieza dos números, as grandes confederações financeiras, a informação manipulada e encomendada, o crescente desemprego, o retrocesso nas condições de vida, obrigam-nos a prosseguir o caminho a continuar a não espera, porque nunca só a espera produziu frutos, sempre o semear precisou de calor e luz, chuva e força para florir, novamente.

sábado, 25 de abril de 2009

Antes de lá se chegar






Festejaram-se hoje de várias formas os 35 anos da Revolução dos Cravos, do dia em que se rompeu com um longo período fascista, repressivo, tirano, mas não se chegou lá porque sim.
Durante os 48 anos de ditadura fascista muitos lutaram, com essa luta houve quem sofresse perseguições, prisões, exílios, torturas, até a morte.
A acção do MFA há 35 anos foi decisiva, mas foi um culminar de tantas coisas, da palavra assada de esperança e luta entre sussurros, de corajosas greves onde era a certa a agressão física, do hastear de uma bandeira em surdina no meio da noite numa chaminé, das candidaturas corajosas de Arlindo Vicente e Humberto Delgado, da revolta liderada por Henrique Galvão, enfrentando o Regime, de tantas lutas.


Muitos procuram não uma vida melhor para si, mas uma sociedade mais justa para todos, uma sociedade onde seja possível que a riqueza, o bem estar sejam igualitários, não uma sociedade onde o bem estar e a riqueza de alguns tenham os seus alicerces na miséria e exploração de outros.


Eu acredito que é possível.


Hoje cantei o Hino Nacional, emocionada como sempre, no meio de faces familiares onde se encontraram muitos, anónimos para a maioria das pessoas que fizeram parte dessa luta, cantei também a inevitável Grândola carregando num abraço apertado uma promessa de futuro, o meu sobrinho, porque é para ele e para os meus filhos que continuo a lutar por essa tal sociedade, tal como outros lutaram muito tempo, para que hoje eu pudesse cantar na rua, mesmo com uns chuviscos…

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Sempre!


Aproxima-se o dia 25 de Abril, um dia prenhe de significados.
Fui mãe num dia 24 de Abril, para desgosto do meu pai, embora estivesse três dias para retirar aquele filho das minhas entranhas, teimosamente não queria sair.
Nessa noite assisti ao fogo de artifício, exausta, da janela do hospital, com aquela
Promessa de futuro ao meu colo.
O 25 de Abril de 1974 foi uma promessa de futuro.
Eu tinha 7 anos, sei que no dia anterior alguém sussurrou aos meus tios: Vão para casa cedo e ouçam o rádio!

Rapidamente toda a família ficou de sobreaviso, os meus tios deixaram-se dormir, a minha avó ficou vigilante e atenta, á medida que a madrugada se desenlaçava na certeza do futuro, abraçava-me e dava-me beijos.
Durante o dia as ruas enchiam-se de gente, de sorrisos, de abraços e de cravos vermelhos. De alegria e de esperança.
Basicamente percebi que estava a acontecer algo de muito bom.
Nos anos anteriores, aprendia músicas que não podiam ser cantadas, a partir desse dia soube que as podia cantar, a plenos pulmões.
25 de ABRIL, SEMPRE!

quinta-feira, 23 de abril de 2009

As ausências


As ausências não são vazias
Ao contrário do que se poderá pensar
São cheias de imensas coisas
Só se sente a ausência do que existiu
A ausência está cheia de restos
Restos de memórias, de cheiros
Sulcos de sal, de lágrimas e ondas
O resto do sabor do outro
O leve traço de um olhar que marcou
Ficou
Aquele calor
Aquele mesmo
Que ficou e vai ainda assim aquecendo

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Olhos Negros

Há algum tempo atrás falei dos meus meninos perdidos.
De há duas décadas para cá que me vão passando pelas mãos e pelo coração várias crianças, indesejadas, rejeitadas, mal amadas, mal tratadas.
A principio chegava a casa e propunha ao meu companheiro trazer para casa cada um daqueles meninos que se agarravam a mim com uma fome de colo, ele explicava-me que não podia ser, que não poderíamos fazer tal coisa, de facto não podíamos por muitos motivos.
Muitas histórias ainda me doem, muitos cruzam-se comigo, já adultos e cumprimentam-me alegremente, outros perdi-lhes o rasto.
Ontem cruzei-me com uma, podemos chamar-lhe Rafaela.
Quando a conheci a Rafaela tinha 3 anos, era uma mulatinha de olhos enormes negros, lindo, de cabelo aos cachos, reguila, esperta.
O pai estava preso, tráfico de heroína, a mãe tinha a Rafaela e mais três filhos, sendo que dois tinham um progenitor e a Rafaela e o irmão outro.
Viviam num pátio retirado de qualquer filme neo-realista, com umas espécie de habitações, escuras, de divisões minúsculas e interiores e uma cabine com uma sanita para todos.
A Rafaela cheirava mal, tinha, piolhos, passei uma tarde com a enfermeira da Saúde Escolar, uma mulher imensa, alta loura de rosto e formas quase quadradas que escondiam uma ternura de avó, a tirar-lhe os piolhos, champô apropriado comprado com o nosso dinheiro, pois claro, loção, amaciador. A Rafaela não queria cortar o cabelo.
Conseguimos que fosse para um Jardim-de-infância, arranjámos subsidio para as refeições, roupa, a Rafaela por vezes usava sandálias de Inverno.
Revelou-se esperta e vivaça, corria para mim e pendurava-se no meu pescoço.
A Rafaela tem 17 anos.
Ontem cruzei-me com ela no supermercado, alguns piercings, um companheiro com ar pouco limpo, uma gravidez, e um menino, que mal anda de olhos imensos negros e lindos como os dela.

terça-feira, 21 de abril de 2009

E há dias assim

Isto tendo dias há dias assim, dias em que parece que estou farta de mim própria, dias em que esta mulher me cansa.
Sempre com a estranha mania de carregar o mundo nas costas, de sentir sempre que fez pouco e de menos, que está em falta com qualquer coisa.
Apesar do tamanho e da idade, com um estranho fundo infantil, de criança meio perdida, sempre em busca de aprovação e o pior é que muitas vezes não a aprovo, ela ressente-se fica assim um bocadinho amuada, comigo.
O que não deixa de ser estranho.
Depois estes bichos-carpinteiros que me obrigam a mexer a conceber, planos, projectos, coisas e a querer faze-las todas, como se o mundo fosse terminar.
Mesmo a dormir esta mulher fala, esbraceja, veste pijamas infantis com ursos e estrelinhas, mesmo que se deite tarde, insiste em ler um bocadinho, se o livro é interessante lê uma eternidade…teimosa, acorda sempre ás 8 da manhã, mesmo em dias de agenda imaculada.
Cora com facilidade, arregala os olhos a muita coisa, continua a espantar-se com o mundo, sente-se sempre assim um pouco só, abana a perna, não consegue ficar sentada muito tempo…

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Limões pois claro!

Ultimamente sou confrontada comigo própria, uma estranha luta esta.
Se por um lado perfilam-se memórias que julgaria serem só memórias e nada mais, por outro, essas memórias reinventam-se outra vez obrigando-me uma vez mais a passar pelos mesmos estados de espírito.
As minhas mãos estão cobertas de pequenos golpes, sinal de cansaço, quando abuso de mim própria, o meu corpo vinga-se das mais estranhas maneiras, deixando de funcionar correctamente, por exemplo a manusear objectos, portanto quando se trata de facas o resultado é este.
Por outro lado enfrento há vários dias uma espécie semi vigília, onde não consigo um sono único e reparador, com a benesse do descanso, salto, falo, discurso, movimento-me, durante os curtos períodos em que durmo, num soluçar cansativo.
Aguardo ainda muitas coisas, em suspenso, resultados, acções, decisões, enquanto isso os relógios giram loucos a consumir segundos, minutos e horas, onde várias coisas de sobrepõem não dado tempo nem para pensar, apreciar, programar.
Tudo, quase tudo é feito sob pressão, o que me angustia ainda mais.
As notícias cansam-me, os jornais afligem-me e até as pequenas coisas do dia a dia ameaçam ser catastróficas, esqueço-me de travar o carro, visto roupa ao contrário, esqueço-me de coisas importantes, baralho outras, desiludo-me a mim própria...
Agora um pequeno refrigério, um Concerto intimo e emocional, José Mário Branco, sempre bom, o encontro com amigos no fim do concerto, dois dedos de conversa e um saco cheio de limões, porque os amigos partilham estas coisas, memórias, chatices, carinhos e limões pois claro!

sábado, 18 de abril de 2009

As inquietações



As inquietações não terminam porque dizemos aquieta-te
Ou esquece, deixa estar, não penses nisso
As inquietações crescem, porque nos desinquietam
Inquietam tanto as dúvidas, como a certezas
Inquietam-me a mim, as lembranças e os desejos
As faltas e os excessos
A dor e o prazer
O incompreensível e aquilo que conheço
Antes mesmo de olhar, tocar, provar, cheirar, ouvir
Porque a minha inquietação é bicho bravio
Um felino, um passáro ou um peixe
Que nasceu assim livre, feroz
Arrogante
Belo e temível
Que se vê metido numa jaula e
Fica assim, inquieto
Incapaz de se aquietar
Sempre à espreita de ser livre

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Dos Falos e outras coisas masculinas


Acho, sinceramente que os falos têm sido sobrevalorizados ao longo dos tempos.
Há quem diga que os menires são uma representação fálica, a mim parece-me um bocado exagero.
Por exemplo no Velho Testamento, no Cântico dos Cânticos, fala-se num pilar…
Uma das melhores descrições que li está no livro de Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera, onde no relato da noite de núpcias de Fermina Daza é comparado a um animal, pouco ágil, que sopra furioso…
No entanto na minha infância desejei ardentemente ter um tal como os meus primos, por motivos práticos: quando não conseguiam desvalorizar-me de mais forma nenhuma faziam, orgulhosamente, xixi de pé, enquanto eu tinha que me acocorar, numa posição, no mínimo degradante.

Depois distanciei-me e até tive medo de tal coisa, principalmente quando eu e uma amiga, na puberdade decidimos consultar o Kama Sutra que o pai dela julgava a salvo, não estava, coitado.
Nessa leitura clandestina, observámos tudo de forma científica, assumimos solenemente que se fosse imprescindível a prática do sexo oral para casar e procriar, ficaríamos solteiras e virgens….
Depois mais tarde acabei por me familiarizar, sempre no entanto achando graça ao valor que se atribui a tal parte anatómica.
Também descobri que todas aquelas posições eram, na sua maior parte fantásticas, quase dignas de acrobatas, que não são preciso manuais, o improviso e a criatividade são suficientes, acima de tudo o carinho.

Convenhamos que se em estado de actuação pode ter uma certa imponência, na maior parte do tempo tem um ar envergonhado de cabeça de tartaruga.
Não será o principal atributo de qualquer homem, nem a sua parte mais sensual, embora muitos homens usem-no mais do que o cérebro, esse sim um órgão sensualíssimo.
Pensem assim: o falo é uma parte pequena do corpo masculino, mesmo muito acordado, é menos que um vigésimo?!
Coisa pouca…

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Conta-me Histórias

Gosto muito desta música, sempre gostei, aliás.
Acho a letra poética.
Canto-a em surdina muitas vezes, outras vezes menos em surdina, outras só para dentro.
Gosto ainda mais dela cantada pela Manuela dos Clã, porque me identifico com a música e assim cantada no feminino soa melhor.
Como não encontrei um vídeo ao meu gosto fiz eu este, foi um momento criativo ou não!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Sardinhas recheadas com maçã...

Pronto o desconforto é total: os corredores, o cheiro, o medo, os tubos, os líquidos, os fios, as máquinas, os enfermeiros, os doentes, os médicos, os jardins e as visitas, nada a fazer!
Depois de ouvir o médico, jovem, a gaguejar um pouco, com olhos cansados, a explicar de forma perceptível o delicado balanço de cateteres, bypass, intervenções, circulação tratamentos.
Coloco eu as perguntas, parece que percebo, mas fica um monte de dúvidas juntas com outras de outra espécie, de todas as espécies que me atormentam, em catadupa.
Depois o tal passo acelerado.
Depois a rua, cheira a chuva!
Há crianças a brincar num recreio de um colégio, vozes infantis, alegres, uma golfada de vida. Logo ali em frente.
O Metro, eficaz e impessoal, com um conjunto de idosos ás voltas com a máquina, explicamos, exemplificamos, por fim resolvemos nós, com a falsa segurança de quem está familiarizado, mentira, pura mentira, quando nos vendiam um bilhete trocava-se um Boa Tarde! Obrigado!, junto com as moedas...

O Barco, não gosto destes barcos, tenho saudades dos outros mais lentos mas onde os bancos eram frente a frente e se podia juntar o grupo diário, com o jornal da tarde, também já não há jornais da tarde, pois não?!
Era o Diário de Lisboa, e um grupo juntava-se no meu sítio favorito: a varanda!
Da varanda cheirava ao rio, via-se o cais das colunas, as gaivotas, o rio com um tom de prata dado pela despedida do sol, via-se a ponte, o Cristo Rei, a Lisnave, depois os meus moinhos em Alburrica, a sombra da Serra da Arrábida.
Eu sei que demorava mais tempo, mas deviam ter deixado uns assim para pessoas como eu.
Em vez do jornal da tarde a minha irmã abre uma revista dita cor-de-rosa, pessoas de caras esticadas, diminutivos parvos, exposições da vida privada de uma qualquer actriz de novela, uma receita perfeitamente absurda: Sardinhas recheadas com maçã….

Dos amores impossíveis concretizados




Existem lendas familiares que se vão diluindo no tempo.
Dos amores impossíveis na família falo de um, hoje.
Os meus tios avós, Maria e Manuel, podemos chamar-lhes assim.
Ela era a irmã mais velha do meu avô materno, alta, grande, pele branca e nariz fininho, acho que a minha mãe é a pessoa mais parecida com ela.
Educada numa família tradicional, cheia de preconceitos, regras e afins, o que deve ter tido um efeito contrário, porque ela rebelou-se, o irmão (meu avô) acaba por ser um homem muito avançado para a época e a irmã mais nova foi a tal que aos setenta se divorciou de um homem vinte anos mais novo.
A minha tia era adolescente quando o cunhado do pai morreu deixando viúva e órfãos.
Dos órfãos ficou o primo Manuel, que foi acolhido na casa do tio e criado com filho em pé de igualdade com os primos.
O que não estaria previsto pelo meu bisavô era o sobrinho e a filha apaixonarem-se, pior concretizarem essa paixão.
Estamos a falar do final dos anos vinte do século passado.
A minha tia ficou grávida do primo, um escândalo!
O pai acabou por lhes dar um terreno, uma casa, nunca mais falou ou quis ver o sobrinho, que passou a genro.
Eles tiveram muitos filhos, não sei se viveram felizes para sempre, acho que não, basta dizer que só quatro filhos sobreviveram e foram muitos mais.
Acho que viveram como todos os casais, condicionados por múltiplas situações.
Lembro-me vagamente dele já afectado com uma trombose, lembro-me bem dela e do beijo diário que lhe dava ao passar pela sua janela, do quintal imenso, da cama de ferro deles, que acabou por ser a minha primeira cama de casal, do cheiro da casa, das paredes em gesso pintado a imitar mármore, da marmelada a secar em tabuleiros de esmalte.
Foi assim que eu tive um tio que era primo.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Por Decreto




Por decreto foram proibidos os abraços
O mesmo estipula ainda que os olhares
Sejam reservados
Os beijos devem ser de boca fechada
Devidamente desinfectados, higiénicos
A amizade deve ser de cor neutra
Nada de colorido
A música discreta pouco arrebatada
Sem agudos, graves, sons de baixo
Baterias, choro de saxofone e trompete
Lamento de violino e violoncelo
Tudo isso é de evitar
As intuições, paixões, causas,
Actos criativos e emocionais
Serão punidos
As atracções, empatias, solidariedades
São de evitar, só a ser usadas em casos excepcionais
De força maior
Devidamente fundamentada em impresso próprio
Sujeito à apreciação do superior hierárquico
Todos deverão ser maquilhados de forma inexpressiva
Ou preferencialmente usar máscara
Todas as flores estão proibidas
Mas muito particularmente as rubras
Que exaltam os sentidos
Os pássaros também, as marés, o luar
Os raios de sol
As nuvens normalizadas
Os sentidos também devem ser usados com parcimónia
Ver, ouvir, provar, cheirar, tocar, são dispensáveis
Todas as singularidades banidas

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Do choro e outras coisas



Raramente choro, acho que muitas vezes passo uma imagem de insensibilidade.
Acumulo as coisas em camadas, coisas bafientas, guardo imensas: a dor de ter de dizer ao meu pai, que não, nunca mais iria ver o mar ou pegar num neto ao colo; o perder em definitivo alguém que nos faz falta e continua a fazer falta todos os dias; a sensação de não conseguir armazenar mais pedras no peito, que nos puxam para baixo, sem nunca nos deixar ir à tona; depois engolimos outras coisas, que não queremos, não digo sapos, que até gosto de perninhas de rã, mas outras coisas, mais viscosas e amargas que não depuramos devidamente, que deixam resíduos e acumulam com as coisas bafientas.
Depois há uma catarse num dia qualquer, num dia qualquer, num dia até sem muitas nuvens, sem chuva, mas que gelamos por dentro, aliás eu gelo por dentro, e solta-se um dique, uma torrente, porque entalei um dedo na porta, porque bati com um pé numa pedra, porque ouço uma música que parece que foi escrita para mim, naquele momento.
Todas as coisas bafientas saem em cachões de lágrimas, grossas, cheias de mágoas.
Fico com um aspecto deplorável de olhos e nariz inchado, mas depois respiro melhor, durmo melhor.
Tenho de ver se entalo um dedo numa porta, anda a fazer-me falta….

domingo, 12 de abril de 2009

Fossil

Por vezes damos passos alterados
Menos certos, errados
Evitáveis
Depois de dados ficam
Nódoas indeléveis
Um cimento fresco marcado
Um fóssil do erro
Mas tal como os fosseis
São só marcas
Não ficam vivos
Morreram

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Joias e Pensamentos....





De vez em quando oferecem-me doces, eu gosto!
Eu gosto!
São mimos, o Zorze e a Menina Idalina ofereceram um símbolo que diz que este blogue é uma jóia, o Maldonado e o AP oferecem-me outro que diz que é prémio para os jovens que pensam.
Eu não me sinto uma jóia, mas sinto-me verdadeiramente rica de tanta gente considerar estes meus desabafos, extremamente pessoais, preciosos.
Também me sinto dignificada por partirem do princípio que sou jovem, afinal completei 42 anos a semana passada.
Pedem, para indicar blogues premiados, todos os que estão aqui ao lado merecem. Portanto se faz favor sirvam-se.
Pedem para indicar desejos, hesito: pessoais? Globais? Nacionais?
Salta à vista, Paz, Saúde, algum dinheiro, fim da guerra da fome, das injustiças sociais, umas viagens, ver os filhos crescer, a família ao nosso lado, os amigos…
Basicamente desejo que todas as pessoas sejam felizes e amadas.
É só um, acham que chega?

quarta-feira, 8 de abril de 2009

A hora da visita

Os edifícios são desiguais, notam-se que cresceram em épocas diversas, no entanto os jardins estão cuidados.
Quando se passa no Pavilhão de Pediatria e logo de seguida no Parque Infantil, com brinquedos garridos entre árvores sentimos um aperto no peito, fingimos que não nos incomoda.
Lá dentro são quartos em corredores antigos, com um cheiro estranho a desinfectante e a medo, pintados de cores suaves que parecem incrivelmente desajustadas, pedaços de tinta descascada, interruptores diferentes, tubos junto ao tecto com diversos fins, remendados de diversas formas de folha de alumínio a tiras de adesivo.
Há cadeiras de rodas, macas, cadeiras de espera já gastas, mesas com rodas carregadas de desinfectantes, tubos, seringas, coisas impossíveis de identificar, uma enfermeira combina uma saída “Sim sigo o caminho do aeroporto, vou tentar sair 5 ou 10 minutos mais cedo.”
No corredor deambulam os da casa, semi residentes, que a pouco e pouco, se habituam aquela vida alternativa, medida pela visita do médico, o número de exames e tratamentos já efectuados, a luz da rua que entra e teima em alcançar até meio do chão, um pouco do verde das arvores lá fora, os aviões que ali já voam baixo, o ruído dos carros enquanto a vida passa lá fora.
Cruzam-se visitas e doentes, médicos, enfermeiros, auxiliares, pessoal da limpeza.
Todos com farda, a das visitas é anacrónica, a dos doentes varia, roupões de cores claras, chinelos com bonecos de cor garrida, lenços na cabeça, muitos, numa restia de garridice, outros não, exibem o crâneo calvo e caminham pelo corredor.
Tentamos gracejar, falar de banalidades.
É outra vida, medida ao segundo, à pulsação, aos tempos dos medicamentos, ás esperas.
Quando saímos acelero o passo.

terça-feira, 7 de abril de 2009

A família sempre

Na medida em que escrevo neste espaço sobre a minha família dou-me conta da sua singularidade.
Claro que para mim é normal, cresci assim, numa família muito alargada onde existem e existiram personagens fantásticas. Já falei de alguns, mas faltam muitos, e alguns dos já citados têm mais peripécias.

Na minha família dá-se de uma forma natural e que nunca achei estranha um destaque e primazia ao conhecimento e à cultura, desde o mais letrado ao semi analfabeto, contam-se histórias dos antepassados, guardam-se fotos amareladas, objectos, transmite-se episódios trágicos e anedóticos e por vezes parecem que vivem todos comigo.
Costumamos dizer na brincadeira que vivemos em tribo ou clã, mas é um pouco verdade, afinal relaciono-me quase diariamente com primos em quinto grau, pessoas com quem se calhar não partilho muito ADN, mas partilho antepassados.
Somos próximos, até os mais longínquos (a minha tia vivia no Canadá e falava com ela várias vezes por semana), apoiamo-nos, somos altos e baixos, gordos, magros e assim assim, louros, ruivos, morenos de olhos escuros e claros, o gosto pela cozinha, pela musica pela literatura, uma certa frontalidade com as causas, uma certa ingenuidade também.
Quando toca a ossos, somos uma muralha impenetrável, com todas as divergências, politicas, de opinião, religiosas, não interessa estamos juntos.
Vejo com uma certa graça o nariz do meu avô paterno em todos os primos, maior, mais pequeno, mais arrebitado, os olhos cinzentos do meu avô materno no meu primo, a alegria e boa disposição da minha avó no meu filho mais novo, o rigor horário e não só de vários membros da família no meu filho mais velho, o “despacho” da minha avó na minha irmã, o gosto pelas farras e pela boa mesa no outro meu primo, outras coisas em mim como a tenacidade do meu pai ou o gosto pela culinária da minha avó, um certo encantamento com a vida, mas é claro isto tem dias.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Opera música de operários

O meu avô materno era um homem culto, recatado, calmo e circunspecto.
Casou com uma mulher que era um furacão de alegria, boa disposição e trabalho.
Ele era branco e louro de olhos claros, ela morena, ele tinha alguns estudos e de uma família com umas certas pretensões, algumas propriedades, ela era de uma família pobre, começou a trabalhar em criança, trabalhos duros, ainda era ela que governava a casa e tratava da irmã doente e do irmão mais novo, quase que não foi à escola.
No entanto, aprendeu a ler e escrever quase sozinha, tinha uma voracidade por aprender tudo, ele ferroviário e mais tarde por circunstâncias várias, padeiro, tinha outras paixões para além daquela mulher: os livros e a opera.

Assim assistia a toda a temporada do São Carlos, luxo supremo conjuntamente com os livros que adquiria e com a tenacidade com que colocou as três filhas a estudar, que não era habitual naquele meio e naquela época.
Como tal cresceram a ouvir óperas, como não tinham gramofone ou algo parecido tinham a minha avó, que não só decorava os libretos como as árias, como as assobiava, cantava e descrevia em pormenor.
Aprendi todas as óperas clássicas com a minha avó. Noites a fio a assobiar a pedido O Adeus à Vida da Madame Butterfly ou L’Amour da Cármen.

Uma herança sem preço.

sábado, 4 de abril de 2009

De uma das minhas bisavós Mariana



Tive duas bisavós de nome Mariana, cruzaram-se na vida, porque afinal eram as duas do Barreiro, sensivelmente da mesma idade, do mesmo meio.
Hoje escrevo sobre uma delas, não a filha do inglês de quem herdei os brincos passados à mais velha do “lote”, mas da mãe da minha avó paterna.
Sei que casou e teve duas filhas, gémeas, sendo uma delas a minha avó, cedo muito cedo perdeu uma das filhas, levada por uma qualquer doença infantil e pouco tempo depois o marido.
Ficou só com a minha avó, que teria uns 7 ou 8 anos.
Vivia numa casa tão grande que era conhecida pelo “o quartel”.
O “quartel” era partilhado com o irmão, cunhada, e segundo sei pelo menos seis sobrinhos.
Parece que a minha bisavó era a alegria e a generosidade em pessoa, pelo menos é assim que vários barreirenses que a conheceram a recordam.
Casou novamente com um viúvo, com duas filhas, um fragateiro, que ganhava a vida a navegar entre as duas margens do Tejo, com a fragata carregada de tudo o que se possa imaginar, desde alfaces a carvão, passando por cortiça.
Ficaram a viver no “quartel” onde tiveram outra filha, numa casa cheia de crianças.
As crianças eram todas tratadas por igual o que fez com que as primas da minha avó, as enteadas, a minha tia e a minha avó, sentissem que eram mais irmãos que outra coisa qualquer. Pelo que me contam eram todos criados com mimos raros para a época.
O meu pai e os restantes filhos da minha avó nasceram nessa casa.
A minha bisavó Mariana assistiu ainda à morte precoce da filha, da minha avó, que morreu aos 26 anos. Um choque, que nem imagino, porque acho que assistir à morte de um filho será contra natura.
Por fim não resistiu à morte do marido, deixou de comer, beber e falar, assim por esta ordem, até que se deitou na cama conjugal, no lado dele e morreu.
Ficou a ideia romântica que morreu de amor.
Não sei se assim foi ou se simplesmente desistiu, no entanto não deixo de ter um certo orgulho nas histórias contadas milhentas vezes pelas suas sobrinhas e pela filha mais nova e de me terem dito por vezes “Tens coisas muito parecidas com ela!”

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Simplesmente assim!


Sou assim, não sei pela genética ou por algo diferente, a experiência a influência o convívio.
Sei que sou assim.
Teimosa, de telhas, de convívio aparentemente fácil que se torna fechado e sisudo se não sei porquê sinto uma antipatia fulminante.
Contestatária, sempre o lado mais fraco, sempre.
De palavra, não digo que gosto, que vou, que faço, que quero, sem ser sentido, muito sentido.
Fechada em certas coisas, muitas.
Curiosa, descodificar é uma grande aventura.
Sonhadora, imenso.
Meiga, não, acusam-me sempre de não o ser.
Sou capaz de me fazer de parva, para não me aborrecer, mas sou capaz de ser uma tempestade com trovões, raios fulminantes, ventos, se me conseguirem passar do ponto.
Sou conciliatória, mas quando me zango com alguém é eterno.
Impaciente, mas capaz de esperar, nervosa com uma calma aparente.
Simples, não?!

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Conclusões

Haverá ricos e pobres, porque assim mandam os Senhores
Mais pobres que ricos
Porque é da imensidão de pobres que a riqueza vive
Haverá forças da ordem que batam nos insurrectos
Porque é da imensidão da força bruta que
A riqueza se alimenta também
Haverá, esfomeados, marginais, sem abrigo
Bairros de lata, emigração clandestina
Crianças de olhos tristes
Porque disso tudo se alimenta a riqueza
Mas cuidado,
Haverá sempre insurrectos, sonhadores,
Lutadores, inconformados, poetas
Pintores, cantores e outros artistas diversos
Gente que não aceita as conclusões dos
Senhores do Mundo