terça-feira, 31 de março de 2009

Das músicas que detesto!

Confesso que detesto certas músicas, não se trata da simples indiferença que tenho para com o Tony Carreira, por exemplo, mas mesmo asco.
Dito assim é forte até porque deve-se respeitar o trabalho e a criatividade de cada um, mas certo é que não gosto, nem da chamada música de elevador, que são aqueles êxitos de sempre, tocadas em órgão electrónico, (Fellings, Yesterday, etc) flauta de pã ou pelo Kenny G., detesto ouvir Celine Dion, Mafalda Veiga, André Sardet, Os Toranja e João Pedro Pais.
Aliás este ultimo já o encontrei numa praia, o meu filho mais novo dizia “Ò mãe eu conheço aquele homem!” ele sorriu e fez-lhe uma festa na cabeça, eu estive quase para me dirigir a ele, só para o informar que não gostava de o ouvir. Achei que era altamente indelicado, não o fiz.
Assim que me invadem o carro através do auto rádio ou ponho Cd ou mudo de posto!
Não se trata de dizer que nem sequer comprava nunca um disco, não, por exemplo nunca comprei nenhum disco da Madonna mas sei trautear algumas, até gosto pontualmente de uma canção ou outra, mas pronto ficamos por aí.
Por causa disso dou grandes barracas, como chegar a uma festa de aniversário de uma amiga e estar a tocar um Cd da Mafalda Veiga e João Pedro Pais e eu dizer “Que horror! Onde é que tens a cabeça para por isso a tocar?!” de imediato levantar-se outra com ar desconsolado e dizer “Fui eu que lhe ofereci…”
No entanto frente a um karaoke caseiro canto entusiasticamente os êxitos do Quim Barreiros ou a pérola da musica moderna que é “Oh mãe aquele moce bateu-me…”, sem contar a panóplia dos irmãos Catita e dos Ena Pá 2000, é nesse instante que o meu filho mais velho me diz “Ainda tens de me explicar essa embirração com os Toranja…”

segunda-feira, 30 de março de 2009

Madrugada



È de madrugada e passeámos junto ao cais, barcos perfilam-se adormecidos, arrumados no seu sono tranquilo embalados pela ondulação.
As traineiras chegam, provocando a loucura das gaivotas que volteiam doidas na expectativa de um peixe, vibrante e prateado que na ânsia de voltar para a agua, escape de um balde.
E as redes são tiradas, cheira a gasóleo, a peixe e a maresia.
Os homens rudes e tisnados com sacas de serapilheira na cabeça carregam o peixe, equilibrando-se em tábuas, que ameaçam cair a qualquer instante.
Na Lota instala-se a cantoria do lotear o peixe.
Eu tenho cinco anos e certezas infinitas: que os bons são recompensados, que estarei sempre protegida pela mão forte que me segura, que o mar será sempre meu amigo e que cada coisa tem o seu lugar no mundo.

domingo, 29 de março de 2009

Entre letras





Entre letras me desnudo
Abro assim portas, janelas
Rasgo assim pedaços de mim
Memórias, lutas, ensejos
Desejos também
Mágoas, esperanças
Falhas e fugas
Saídas, regressos
Caminhos estranhos ou
Familiares
Seguros e arriscados
Pé ante pé

sábado, 28 de março de 2009

Do cansaço e outras coisas

Quando começo a estar cansada quase que se pode medir esse nível pelas distracções e disparates.
A primeira coisa é começar a dormir menos, parece um pouco estúpido, porque se estou cansada devia de dormir mais, mas não, começo a deixar-me dormir com facilidade assim por pequenos períodos de tempo.
Os pedaços em que durmo, são atribulados com sonhos vários, voltas na cama, discursos, lamúrias e discussões em voz alta.
No período de vigília que antecede o sono esfrego os pés um no outro, segundo quem me é próximo para não me deixar dormir.
De manhã estou mais cansada.
Segue-se o resto, já guardei no congelador uma embalagem de creme para as mãos, procurei, semanas depois a fazer arqueologia entre pedaços de bichos mortos e congelados aparece o belo do creme…
Já guardei no frigorífico as molas da roupa ou a graxa dos sapatos.
Já enchi o comedouro do pássaro de detergente para lavar a roupa, no momento exacto que ia colocar o comedouro, estranho a cor, o comer do pássaro não é branco!
Já passeei pelo mercado com um saco de lixo que uma familiar me tinha pedido para colocar no contentor, só quando arrumava as compras no porta-bagagem é que reparei que aquele saco não transportava alfaces ou tangerinas!
Hoje enchi estojo das lentes de contacto com elixir….

sexta-feira, 27 de março de 2009

Cenas que marcaram VIII

O Grande Peixe


Adoro este filme, deu esta semana no Canal 1, a horas tardias.
Os actores são todos muito bons, ainda por cima adoro o Albert Finney. O realizador é o Tim Burton
A historia é simples e fantástica, a história de um homem e da sua vida.
Pelo caminho há bruxas, gemias siamesas, gigantes, anões, amores impossíveis, uma cidade esquecida, actos de heroísmo e de amor.
O filho duvidava das histórias, até que as percebe.
As histórias simples são fantásticas, as histórias fantásticas são simples.
E viver é uma grande aventura!

quinta-feira, 26 de março de 2009

Os defeitos



Há alguns dias tive uma discussão com um amigo.
Uma discussão até acalorada, que por fim vieram à baila questões pessoalíssimas que nunca deviam ter aparecido.
Fiquei incomodada, ele também.
No entanto apareceu, não para fumar o cachimbo da paz, mas para partilhar um momento de pausa, que enchemos de café, conversas pré fabricadas, de alguns silêncios, por fim não aguentei:
Bom, estás chateado comigo, ainda?”
“Não, não estou, em muitas coisas tens razão. Podias era dizer de outra forma”
“Peço-te desculpa se te ofendi. Havia assuntos que eu não tinha nada que dar opinião.”
“Não te rales. São os teus defeitos que te fazem especial!”

Sorrimos.
Ficou tudo em paz.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Não me gritem!


Não me gritem!
Hoje apetece-me o murmúrio das águas e os gritos das aves
O estalar das arvores e o respirar tranquilo
Assim, encher e vazar o peito
Cada vez que se inspira e expira solta-se a angustia
Cada vez que no silêncio a cor das flores grita
De cada vez que as mãos se apertam ou
Apenas se reconhece num olhar
Todo o barulho incomodo do mundo
Suspende-se
Num silêncio tranquilo recheado de som
O som das carícias, o som dos abraços
Das flores a desabrochar
Das letras do livros
Do cheiro do alecrim, do rosmaninho
Da alfazema e dos frutos maduros
Do nadar dos peixes e do voo dos pássaros
Dos beijos
Da infância guardada
Dos amores relembrados
Dos vividos, dos perdidos
Dos até que podiam ter acontecido
Dos abraços
O som dos cheiros
O som dos sorrisos
O silêncio de uma música que
Grita mesmo só dentro de nós
Só audível em nós
O som da partida que é alegre para quem vai
Ensurdecedor para quem fica
Mas não me gritem mais!
Não me gritem mais!

Viagem

Sempre viajei muito, mesmo sem existirem computadores fazia viagens virtuais.
Em pequena naveguei em barcos de piratas, carroças de pioneiros pelas estepes Americanas, florestas tropicais, fundo do mar…
Estas viagens eram patrocinadas por Júlio Verne e Emílio Salgari.
Com o tempo fiquei com vontade de viajar a sério, não fiz muitas viagens mas fiz algumas, umas voltas na Europa, um cheiro de África no Egipto e uma viagem amarga e doce pela América do Norte.
No Egipto encantei-me com a cor do deserto, o peso da história, um mar azul turquesa transparente, uns sabores parecidos e diferentes em simultâneo, com os nossos, a vontade de lá voltar e ver outra vez o por do sol no Nilo, onde os homens passam de turbante entre as hortas luxuriantes das margens com um barco de vela ao fundo.

Na América do Norte encantei-me com as florestas que iam de todas as cores do verde ao vermelho, com os bichos mansos, com as marcas dos índios, arranjei um esquilo de estimação, o Zé Manel, que vinha comer á minha mão quando o chamava pelo nome, no meio de uma floresta tranquila de grandes lagos, murmúrios entre as folhas.

As viagens dão vontade de viajar, tenho saudades de Paris, vontade de conhecer outras cidades que me fascinam, ver a terra vermelha de África e dançar nas Caraíbas.
E depois voltar

terça-feira, 24 de março de 2009

Ai que saudades

Quando o mundo parece mais ou menos desaba ao redor de mim, não as grandes coisas só as pequeninas, mesquinhas e diárias, tenho saudades de mim.
De um outro eu, que vai desaparecendo lentamente, assim como aquelas fotos muito antigas que vão perdendo a cor, uma Ana que acreditava em tantas coisas, acreditava que as pessoas intrinsecamente eram todas boas (já me custa a acreditar) que acreditava que não lhe fariam mal deliberadamente, porque ela não é capaz de fazer, muito menos deliberadamente, que ninguém pode dizer assim, olhos nos olhos uma coisa e negá-la no instante seguinte, que acreditava que as boas acções só se reproduziam em boas acções, não em cálculos de fragilidade para ataques.
Tenho saudades de não me sentir sempre em falta, de sentir que falho, falho e falho, tenho saudades de ser alguém que acredita que sim, tudo se vai resolver, que a alegria, a calma, o carinho se podem reproduzir até ao infinito, que não precisa de se fechar para se defender, que não precisa de ser dura para não se magoar, que não se tem de justiçar constantemente.
Tenho imensas saudades minhas, tenho de marcar um dia para falar comigo.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Os recursos do planeta não são infinitos a minha paciência também.

Isto tem mesmo dias, hoje foi um daqueles.
Logo de manhã o meu rebento revolucionário que colecciona namoradas como eu coleccionava cromos, que apesar das t-shirts com o Che, é um bocadinho homofónico e machista achou que iria acordar a horas porque sim. Não acordou, portanto acordei-o já com um quarto de hora de atraso, seguindo-se uma cena daquelas do Benny Hill, aceleradas, em que me despachei à pressa para o colocar na escola.

Não assisti à lentidão do mais velho, que faz tudo em câmara lenta, preocupando-se com o seu ar de gótico, mas deitando um olhar comprido de bebé a pedir colo quando estava na maca do hospital.
Trabalho, o normal, chamadas telefónicas parvas, coisas que não consigo despachar, alguém que me telefona a fazer uma pergunta que já respondi, fundamentei e expliquei a semana passada. Não interessa, rebobinaram e fazem-na novamente, talvez pensem que por exaustão me fazem mudar de ideias.
Depois o trivial, papeis, coisas que precisam de resposta, etc.
No meio do etc., um amigo virtual dá-me uma chazada, respondo, não respondo, esquece não vale a pena.
Depois é a vez de um amigo de carne e osso, a conversa deriva, transborda, acabo a dizer o que não devia.
Não termina aqui!
No meio das chamadas surge mais uma, um familiar muito chegado à beira de concretizar uma questão legal “Tenho é o Bilhete de Identidade caducado!”
A cara-metade esquece-se de me dar informações preciosas.
Aparece mais uma sombra de berbicacho em algo que devia de ser alegria e confraternização.
Tenho sono, ando a dormir mal, sonho que estou em lugares desconhecidos (também não é preciso muito é só mandarem-me conduzir para o Feijó e já estou perdida), sonho com pessoas que já morreram e outros que ainda não nasceram.
Começo a ter um certo asco à agenda.

Chegada a casa, um pouco mais cedo do que é normal, na perspectiva de sentar e descansar um pouco no apetecível sofá, dou conta de tarefas domésticas que passaram despercebidas a todos, descongelo o jantar, assisto a outra discussão de adolescentes: o gótico, o revolucionário e o surfista do andar de baixo.
No meio disto, uma amiga angustiada com uma situação de desemprego próxima, outra angustiada com o estrangulamento financeiro de mulher divorciada com filhos a cargo, outra angustiada com a perspectiva de fecho da empresa, outra tão angustiada com a solidão que está internada depois de se ter encharcado em comprimidos.
Penso “Um banho de imersão, Ana! Os sais de banho se calhar já estão estragados mas que se lixe”.
Não, vou tomar um duche, mais rápido e prático, o luxo vai ser um sabonete de cedro, esperar sossegada por amanhã.

Da teimosia das árvores


Nunca pensei muito em mim como uma árvore, até porque não sei estar quieta!
Mas as arvores não são tão quietas como podem parecer, estão sempre num silêncio a modificar-se, florescem, expandem-se, frutificam-se, agarram com as raízes o solo onde muita coisa está, tentam chegar ao sol, respiram pausadamente, combatem o vento, por vezes parecem que se dobram que vão ser vencidas, mas não, naquela derrota aparente em que se vergam, ficam, permanecem.
As mais orgulhosas são facilmente derrubadas, qualquer vento mais teimoso as arranca pela raiz.

Depois espalham coisas, minúsculas, insignificantes, mesmo, sementes, rebentos tenros, aparentemente insignificantes, facilmente destruídos, mas permanecem sempre alguns, sempre.
Portanto são teimosas!
E crescem, tornam-se outras árvores.
Ficam ali com aquele ar aparentemente indiferente, aparentemente sossegado, só aparentemente, nada mais.

domingo, 22 de março de 2009

Maravilha de País.


Eu gosto do meu País, gosto do clima, da paisagem sejam as charnecas do Alentejo, as praias de areia dourada, o verde do norte, a rudeza das serras, o Vale dos rios, o recorte da costa, gosto da nossa gastronomia, amêijoas à Bulhão Pato, Migas com Espargos, enchidos de todo o lado, doçaria conventual, gosto dos monumentos que temos, portanto quando gostamos de uma coisa, de uma pessoa afligimo-nos por ela, não é?

Parece que começou a época de incêndios, hoje eram 15, há pouco tempo foram cheias, antes disso os camiões atravessavam toda a Europa, muito mais gelada e nevada, chegavam cá e paravam por causa de uns centímetros de neve….
Será muito complicado?



Será que não se pode canalizar pessoas que estão a auferir Rendimento de Inserção, para as quais não se encontra emprego para limpar as matas?
Será que se pode uma vez por outra urbanizar respeitando os cursos de água?
Limpa-los antes do período de chuvas para evitar males maiores?
Será que se poda ter arranjado uns veículos que espalhassem sal nas estradas à medida que nevava, para impedir este estrangulamento, só sal, nada mais?
Será que se podia criar corpos de Bombeiros profissionais em vez dos eternos voluntários, que são extraordinários, mas estão cansados, mal equipados e muitas vezes a única formação que possuem é a sua boa vontade?

Será que uma vez se poderia investir em meios efectivos de combate a estes fenómenos cíclicos em vez de: submarinos, observatórios, cimeiras, visitas de estado?
Como gosto muito do meu país preocupo-me com ele, qualquer dia não existe promontório ou praia sem condomínio em cima, mata que não seja de eucalipto e mimosas, Rio que não seja um charco…

sábado, 21 de março de 2009

Era uma vez....

Há algum tempo, nem sei se muito se pouco existia uma princesa, linda como a aurora na primavera, como princesa foi educada para muitas coisas: não falar com a boca cheia, comer pedaços pequenos de comida, ter um ar recatado, que se reflectisse na falta de curiosidade ou mesmo na maneira e cruzar as pernas em público, a fazer compotas, a bordar coisas etéreas e lindas, um pouco inúteis, mas lindas, a estar sempre bem.
A determinada altura a Princesa foi confinada a um castelo, numa ilha, no meio de um pântano, guardada por um dragão.

Seria resgatada dali por um cavaleiro, brioso, corajoso, que derrubasse o dragão e depois a tomasse como esposa.
O tempo corria devagar, a princesa foi lendo os livros que se amontoavam cheios de pó e teias de aranha, lá dentro do castelo, os livros sequiosos por serem lidos, mostraram-lhe como se vivia noutros sítios, como as mulheres tinham começado a descortinar o milagre de enterrar sementes e daí nascer outra planta, normal, guardiãs de vida, os livros mostravam-lhe outras coisas, contavam histórias, sussurravam poemas, levavam-na em viagens por terras tão frias que as casas eram feitas de gelo, planícies tão extensas que homens e mulheres limitavam-se a seguir manadas de animais, que lhes davam comida e conforto, que matavam, sim, com respeito. Mostravam ainda as maravilhas do fundo do mar os caminhos imperceptíveis dos desertos, descreviam especiarias, tantas coisas.
Quando não lia, saia e dava a volta ao castelo, apercebeu-se que o dragão era manso, gostava de festas no pescoço, tinha só aquele aspecto de lagarto voador, mas os olhos de um cão brincalhão.
Tornaram-se amigos.

Um dia soou uma trombeta e numa barcaça linda com duas filas de remadores, montado num corcel vinha um cavaleiro.
Belo, alto, imponente, com uma espada brilhante.
Ajoelhou-se frente a ela declarou o seu amor eterno, disse-lhe mais, onde viveriam, quantos filhos teriam, que papel ela desempenharia no seu reino…
A princesa pensou que não era isso que queria, deu um sinal ao dragão que veio assustador, brutal, a cuspir labaredas e rugidos até assustar toda a comitiva.
A Princesa então cortou os vestidos lindos e etéreos, usou a habilidade de bordar para das saias fazer calças, amarrou o cabelo em vez de o deixar assim caído e sedoso, mas pouco prático, escolheu alguns livros para bagagem, libertou e despediu-se do dragão, pegou no bote e remou, decidiu viver a sua vida.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Calma, calma, é sexta-feira, valha isso o que valha


Ufa mais uma semana mais uma corrida.
Nesta semana muita coisa aconteceu: resolvi uns berbicachos e arranjei uns novos; tenho 3 palmos de uma coisa tricotada tipo rede de pesca para vestir; escrevi dois contos e meia dúzia de poemas mais uns textos marados, actas, fiz uns cartazes e mais umas coisas, olhei para Decretos-lei onde por fim nada faz sentido; afligi-me, também me ri à gargalhada, suspirei de alívio; ouvi estupefacta certas notícias, que o Papa emitiu opiniões que era melhor estar caladinho, tipo que os Africanos celebram a missa com a alegria excessiva e que os preservativos não servem para prevenir doenças como a Sida, um cardeal da Santa Madre Igreja também se pronunciou face à crise que os banqueiros mundiais terão de pedir perdão a Deus; uma nutricionista na TV defendeu a ideia que a crise é boa para os Portugueses melhorarem a sua alimentação, deixarem certos excessos, comerem migas e açordas, substituírem peixe e carne por um ovinho, só com uma hortaliça (pouca que também está cara), o peixe afinal não é tão importante; indignei-me com múltiplas coisas, chorei internamente umas dores várias, sem gritar e sempre com olhos sem lágrimas, que também é coisa que não me dá saúde nenhuma, tenho de aprender a gritar, chorar, qualquer coisa….
Está sol a Primavera está mesmo aí!

quinta-feira, 19 de março de 2009

Um buraco



Ter um filho doente é um buraco, um rombo.
Um rombo em várias partes, no peito, no estômago, na cabeça, nas pernas que ficam frágeis e menos seguras apesar de no momento angustiante nos vestirmos com uma espécie de roupagem de coragem e força, que é falsa.
São sempre os nossos meninos, os meninos pequeninos, mesmo que calcem 45 e tenham namoradas, camisolas enormes e barba.
Queremos pegar-lhes ao colo, fazer o que fazíamos em bebé, protege-los assim dentro do ninho dos nossos braços, mais fortes que qualquer muralha, dizer baixinho “Pronto, pronto meu amor, a mãe está aqui! Já passou!”
Mas não podemos!
Os meninos são demasiado grandes para nos deixarem entrar com eles, apesar de nos lançarem do fundo dos olhos aquele pedido de colo.
Sofremos a dobrar o desconforto, a picada da agulha, o frio do RX, o cheiro do desinfectante, a indiferença de quem faz o seu trabalho, o pingar lento do soro, a triplicar a dor, a quadruplicar todos os lentos, longos, minutos de espera que se arrastam à espera, à espera naquele ambiente impessoal e asséptico onde outras pessoas esperam e esperam, onde a nossa urgência e angústia é maior que a de todos os outros, porque é nossa.
As esperas enchem-se de compassos, o chegar de mais um, mais uma ambulância, o ruído do altifalante, do segurança ou do enfermeiro que chama uma família, um cigarro fumado cá fora, as Revistas com anos lidas como se fossem novas junto com os panfletos da vacina da gripe, e sentimos sós e pequenos e vazios como a máquina sem águas, e sentimo-nos impotentes, muito impotentes.
Pronto o meu menino já está comigo!

terça-feira, 17 de março de 2009

Cantiga de Amante


Mais que flores, citrinos ou cedros
Quero o teu cheiro em mim
Mesmo que não sejam assim perfeitas
São as tuas mãos que sim
Existem madrigais banais
Palavras eternamente repetidas
Por milhares de amantes
Há milhares de anos
Que serão só nossas
Mesmo que não seja o amor
Primeiro ou tão pouco derradeiro

Até que seja assim um amor de fogo lento
Ou a labareda intensa, rápida da
Paixão
Mesmo com marcas da vida
Rotas traçadas entre cicatrizes
É no corpo imperfeito dos amantes
Que se encontra a perfeição do amor
Demasiado doce, demasiado salgada
Excessiva, quente, voraz
Calma, desenfreada
E é assim, não se gasta, não se repete
Mesmo que ainda guardes outros cheiros
Outras palavras
Estes momentos são assim
Nossos

segunda-feira, 16 de março de 2009

Pó e pedra



Sabes aquele peso imenso que por vezes carregamos no peito?
Sabes aqueles momentos de exaustão, que ainda assim sabemos que irão terminar, porque iremos uma vez mais buscar forças, por vezes nem sei muito bem onde, iremos com toda a certeza virar mais esta página, estas páginas.
Apesar de saber também que muitos momentos serão passados a tentar vislumbrar o impossível com a impotência de um náufrago perdido no alto mar, sem uma gaivota ou um tronco flutuante, ou como outra coisa qualquer assim abandonada, partida, um relógio sem corda, um vaso sem terra, um pássaro de asa quebrada.
Depois juntamos assim, as fraquezas, as dúvidas, as ideias que parecem estúpidas, as certezas também, disso tudo fazemos forças.
Com essa força afugentamos o medo, o peso no peito.
E basta saber que não estou só, basta saber que nalgum sitio mesmo lá no fundo ti, pensas um pouco em mim, assim como quem pensa no vento, basta saber que mesmo escondido, dentro de ti, num sitio qualquer, alivias este peso, saber que até poderemos partir estes pesos e transforma-los em pó.
E nós, grãos de areia, transformarmo-nos num rochedo.

Zés cheios de sorte!

Inesperadamente no final de domingo encontro 3 mulheres sentadas na esplanada junto a minha casa.
Conheço-as há muito tempo, são mais velhas que eu pelo menos uma dezena de anos, um pouco mais, conhecem-me de miúda. Juntei-me a elas!
São três mulheres muito diferentes e com muito em comum, todas fizeram por amor opções de vida, por amor a homens completamente entregues a causas.

Sem ordem especifica, a primeira é minha homónima, tem um ar de gazela, o cabelo curto, morena, uns olhos enormes, foi avó muito recentemente, muito recentemente também foi sujeita a múltiplas cirurgias que não correram bem, tem sempre um ar bem disposto, leva as coisas com calma, com ar de menina pequenina.
A segunda tem um ar de menina com olhos azul porcelana, é alemã, no principio dos anos 80 foi a Cuba em viagem de lazer, descobriu um Português, baixinho, moreno, com barba e cabelo de Guerrilheiro da Sierra Maestra (até hoje mantém), que passava lá o mês de férias a cortar cana de açúcar, como se apaixonaram, sem ela falar português, sem ele falar alemão, arranhando um espanhol macarrónico é um mistério, o que é certo é que se apaixonaram e passado pouco tempo veio para Portugal, louríssima, alta, mais alta que ele um palmo, com uma ar perdido face ás demonstrações latinas, uma das minhas tarefas na adolescência era servir de tradutora em Inglês. È fisioterapeuta, está a terminar um curso de acupunctura, mantém um ar de Woodstock, continua a ter um sotaque estranho.

A terceira é finlandesa, também se apaixonou por um português, cruzaram-se na antiga União Soviética, ele não falava russo e muito menos finlandês, ela não falava português, é loura também com ar de matrioska, aprendeu português mantém um sotaque estranho, sofreu recentemente também duas cirurgias.
Tratam-me como uma miúda sempre, ficam abismadas com os meus dotes culinários, com os bordados, com o tricot, com as pinturas, com o facto de acumular isso tudo com as outras responsabilidades, dar-me ao trabalho de escrever diariamente neste espaço.
Riem-se das minhas maluqueiras.
Dizem-me todas, duas com sotaques estrangeiros “Tens de olhar para ti Aninha”.
Os homens delas são todos Zés….
Uns Zés cheio de sorte.

domingo, 15 de março de 2009

Fica.



Fica aqui ao meu lado
Eu sei que lá fora tudo contínua
Os relógios, o vento, as marés
As coisas imutáveis sempre iguais
O voo dos pássaros, as crisálidas a eclodir
O choro e a gargalhada
O calor e o frio
A raiva, o ciúme
O medo que é pastoso
Mas eu não quero estar só
Coisas mais prosaicas
As rotativas dos jornais, mesmo
Que os encham de mentiras e resultados de futebol
As fornadas de pasteis em Belém
A velha que assa castanhas no Outono e
Enrola cartuchos pevides ou amendoins o
Resto do ano
Neste pedaço alguém vai morrer
Alguém vai nascer, alguém vai encontrar o amor
Provar o sabor acre da traição
Alguém vai dar um abraço amigo
Alguém se vai sentir só
Mesmo no meio da multidão
Alguém irá olhar para o espelho e
Não se reconhecer
Muitos, irão mascarar-se, transvestir-se
Enganar-se a si próprios
Pensando que enganam o resto
Por muito que eu não queira, vai continuar a existir
Um conjunto quase infinito de injustiças várias
Alegrias também
Coisas boas e más
Tranquilas e inquietas
Doces e amargas
Mas não será por ficares aqui um momento
Ao meu lado, só ao meu lado
Esquecermos por um breve espaço
Tudo que está fora
Ficarmos aqui só
Um pouco e esquecer o mundo lá fora
Que as coisas imutáveis irão deixar de ser iguais

sábado, 14 de março de 2009

Esses não!


Desde de pequenita que sou contestatária, inconformista, isso aliado ao facto de comer de muito mau grado sopa valeram-me a alcunha da Mafaldinha, numa homenagem da qual fico orgulhosa.
As injustiças sempre me incomodaram mesmo aquelas que nada tinham a ver comigo, incomodava-me por exemplo a Professora no Colégio fazer vista grossa ao rol de asneiras e diabrices do filho do senhor doutor, do filho do dono do stand de automóveis, enquanto um colega, filho de uma continua lá do colégio era brindado com bofetadas de fartura por tudo e por nada (hoje é dentista e gostava de saber o que ele faria se a apanhasse na cadeira do consultório).
Por exemplo, não gostava de ir ao Circo, faziam-me impressão aquelas crianças pintalgadas mas muito magrinhas, havia um ar de miséria dourada naquilo tudo, pensava onde dormiriam, como viviam em tendas e roulotes a cair, nos dias de chuva e de vento.

Em pequena vivia angustiada com essas coisas e com outras, com não poder cantar em público certas músicas que me ensinavam, com amigos que apareciam a meio da noite em sussurros, saiam lá de casa de madrugada, com abraços fortes, olhos rasos cheios de lágrimas, a gabardina do meu pai vestida, e aquela palavra “Adeus Camarada, tem cuidado!”, haviam amigos de sempre que também desapareciam, um silêncio que se impunha quando se ouvia “Apanharam o….”.

A determinada altura perguntei porque é que um amigo da família estava preso, foi-me dito que estava preso porque não queria a Guerra, porque queria que todos pudessem falar e dizer o que sentiam, achei logo que aquilo não era justo.
Também não achei justo a PIDE entrar em casa dos meus tios de madrugada, dizendo que era desta que o meu tio iria preso, porque tinham uma denuncia, lembro-me de perguntarem “E esse quarto?” o meu tio respondeu “Está aí a minha sogra e a minha sobrinha, uma velha e uma criança”, não interessou, eu já estava na cama da minha avó assustada com aquilo tudo, saímos e assistimos a tudo ser revirado: brinquedos, roupas, colchões, os discos espalhados (O Cavaleiro sem Medo em single tínhamos de o virar para ouvir o resto da história, A Menina do Mar em LP narrada pela Eunice Muñoz), apetrechos de cozinha, a caixa da costura, os meus cadernos da escola, as caixas dos Legos, os livros…
Horas depois não tinham encontrado os “tais” livros, vociferaram meia dúzia de patacoadas sobre a colecção completa da Mafalda, fizeram menção de os levar, lembro-me de dizer baixinho “Esses não…”
Ainda hoje dentro de mim digo muitas vezes “Esses não!”, quando ouço ou assisto a certas coisas digo cá dentro “Esses não!”. Mas não digo só cá dentro, digo de todas as formas que sei e posso, a última coisa que quero é ser conformada, já como sopa, até para dar o exemplo aos meus meninos, mas conformada não….

sexta-feira, 13 de março de 2009

Sexta Feira 13

Hoje é sexta-feira dia 13, supostamente dia aziago.
Eu cá espero que sim, espero que a acabe esta má sorte de sermos assim a modos que desgovernados.
Por isso estive na a rua, eu e milhares de pessoas, mais ou menos duzentas mil a dizer que estamos fartos, que para além da crise internacional, sacrificamo-nos há tempo de mais para a tal luz ao fundo do túnel que nunca mais se acende.
Dissemos que queremos ser felizes, queremos um futuro, queremos trabalho, justiça social, orgulho.
Que estamos fartos que o nosso dinheiro sirva para obras megalómanas ou para ajudar os banqueiros, coitadinhos, que não nos faz falta um boletim de vacinas electrónico, faz-nos falta maternidades, hospitais, urgências, Centros de Saúde e Médicos de Família.
Dizer que não queremos que a Segurança Social acabe e que seja substituído por um sistema qualquer pouco claro, queremos o contrário, trabalhar, descontar e quando chegar a altura ter um fim de vida condigno.
Dizer que não preciso avaliar os professores desta forma, nem computadores Magalhães com erros, é preciso escolas com condições onde não chova, onde haja pavilhões desportivos, Bibliotecas, onde as crianças possas crescer e cultivar a sua inteligência.
Muitos acordaram de madrugada, para cá estar, vieram de muitos lados, do Algarve, do Porto, de Viseu, de Braga, de Beja, alguns da Madeira e Açores, mas tínhamos nos olhos a certeza de que nunca nada nos foi dado por dar e que temos a força da razão.

Como prenda deixo este hino de Fernndo Lopes Graça que gosto muito e dedico a todos


Acordai
acordai homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais

Acordai!

quinta-feira, 12 de março de 2009

Não vale a pena ires ver se estou ali...estou aqui, mesmo!


Existem pedaços quebrados de mim por muitos lados.
Espalhados
Junto com a chuva, com ventos diferentes, alísios, suão, siroco, não sei, nunca lhes pergunto o nome, sei que o suão é quente e carrega consigo um cheiro de especiarias e uma poeira do deserto.
Espalhados ao sol, pedaços de um eu ainda infantil, que se maravilha com certas coisas quase insignificantes, que respira atordoada o cheiro dos pinheiros mansos, a minha árvore favorita, que sorri toda com o mar.
Guardei outros pedaços de parte, temporariamente, até para não os desgastar.
Guardo só para mim pequenos pedaços, apesar de saber que o mundo continua a girar, que diversas injustiças, muitas, imensas a ocorrer, coisas em que é preciso batalhar na mesma, mas pronto tirei um pedaço só para mim, que me impede de hibernar ou de me atirar ao mar, fui comer um peixe grelhado e ver o mar, sem horário.
Carreguei baterias, respirei fundo.
Não hibernei, não me atirei ao mar….

quarta-feira, 11 de março de 2009

Cantiga de Amigo




Não me lembro de mim sem ti
Por isso és importante
Incontornável
Podes até ter chegado ainda há pouco
Aqui na minha vida
Ou pelo contrário, podemos ter partilhado
Traquinices, berlindes, um gelado, uma bicicleta
Se calhar amuamos com uma coisa daquelas parvas
Eu esperava que os índios vencessem tu os cowboys
Acho que me ensinaste a dar mergulhos
Depois de eu te ensinar a flutuar

Ou então nada disso
Tropeçámos um no outro assim grandes
Com umas mágoas, umas experiências,
Os dentes definitivos
Filmes, livros e músicas importantes (Lembras-te?)
Um sorriso fácil, um reconhecimento de bicho quase
Ou relembrámos coisas que já sabíamos de outra forma
Existem coisas, que assim de caras, gostamos da mesma forma
Outras completamente opostas
De certeza que de qualquer das formas
Aprendemos coisas juntos
Até pensámos
Que andei a fazer tanto tempo sem ti?

terça-feira, 10 de março de 2009

Vai lá ver se eu estou ali...






De cada vez que acho que a minha vida melhora lá me cai uns cagalhotos em cima.
Ou sou eu que ando doente, não consigo fazer a minha vida normal, ou é a família toda em bloco, que adoece de maleitas várias, todas más, que as maleitas são más, sempre.
O médico que junta mais um comprimidinho ao rol do dia, para me acalmar, estabilizar, sei lá o quê. Como se essas coisas existissem nos comprimidos.
Mais uma amiga a braços com uma doença incapacitante e provavelmente terminal.
Aparece-me um dedicador de poemas, anónimo, eu acho “Olha que giro!” mas depois a coisa torna-se massacrante e cansativa, tipo pastilha elástica na sola do sapato.
Ou então são uns xicos espertos que aparecem a achar que lá por ser comuna tenho de andar rota, esfarrapada e não gozar os prazeres da vida.
Ou então são amigos ou pessoas que eu tinha como amigos que me dão desgostos.
Mais o custo de vida, o desemprego, mais os discursos á nação, as opiniões da Santa Madre Igreja que devia de estar caladinha em certas coisas, o Magalhães cheio de erros, a Fátima Lopes que faz vestidos inspirada na Virgem Maria, as cheias, as secas e os incêndios em vários sítios, a crise, mais os meninos perdidos e abandonados…
Salvam-se outros amigos, solidários, virtuais e de corpo inteiro, os meus rebentos, o carinho e o ninho da família.
Mas juro que só me apetece atirar ao mar e nadar até um mundo novo…ou então fechar-me dentro de mim, hibernar como os bichos e pronto!