terça-feira, 30 de dezembro de 2008

12 Passas


Tradicional engolir 12 passas de uva á meia-noite do último dia do ano.
Um pouco relativo, já que a meia-noite do último dia do ano é muito diferente e as horas distintas conforme o local do globo, Sidney, Fornos de Algodres, Cairo, Paris, Colorado, Waikiki ou Alcabideche.
Mas pronto engolimos as 12 passas, bebemos uma taça de champanhe ou outro sucedâneo espumoso, destinamos um desejo por cada uva mirrada, beijamos as pessoas com quem estamos, esperamos que aquele ritual de uvas mirradas e álcool espumoso faça efeito.
Invariavelmente não faz.
Portanto fazemos este ritual e esperamos o melhor, eu vou fazer pelo sim pelo não, entretanto deixo aqui uns desejos que peço ao pessoal para incluir nas 12 passas:

Nº 1-Desejo que a ONU funcione. Simples, não?!
Desejo que seja uma Assembleia-geral de Todos os Povos do Mundo, defenda a humanidade, não esteja manietada ou subserviente a qualquer clientelismo, interesse político ou económico, seja o garante da Paz e do cumprimento dos Direitos Humanos.


Nº 2-Paz no Médio Oriente.
Parece-me incompressível que se ofereça um quarto que se tem vago a alguém sem casa, que depois nos ocupe toda a casa e nos enfie na dispensa com a nossa família. Com o acesso limitado a água, electricidade, cuidados de saúde ou meios de subsistência. Mais ainda de cada vez que se faz barulho a arrastar uma cadeira, desatam ao tiro, a bater com paus e à mangueirada, cortam em definitivo agua e luz.
Isto porque se estão a defender….dizem eles.
Tudo em nome de um suposto ser omnipotente e omnipresente, que parece que é o mesmo, para os dois e que supostamente é pai.
Eu como mãe, com todos os poderes possíveis não consentia que um filho meu fizesse aquilo a outro.

Nº 3-Usar a Tecnologia para coisas verdadeiramente úteis.
Relembro que daria muito mais jeito erradicar uma série de doenças do que recriar o Big Bang. Que se podia usar a globalização para levar água potável a todo lado em vez de petróleo ou bombas, ou levar alimentos em vez de se incinerar porcos e fruta ou obrigar produtores de leite a pagar multas por produzirem leite a mais, no mesmo planeta onde morrem crianças de fome.

Nº 4-Garantir que cada criança é fruto de amor.
Simples este, não é?!
Garantir que cada criança é concebida por amor, criada com amor. Que cada um de nós terá essa responsabilidade, terá a responsabilidade de não existirem mais crianças maltratadas, abusadas sexualmente, com frio, com fome, obrigadas a trabalhar, privadas de educação.
No mesmo pacote podemos generalizar que as crianças crescem, precisam do mesmo carinho e atenção dignidade e respeito, enquanto adultos, mesmo quando chegam a velhos.

Portanto só peço isto, que na vossa dúzia de passas incluam estes quatro, é abrangente, não chocam nenhuma sensibilidade politica ou religiosa, penso eu.
Já que está a chegar um ano novinho em folha aproveito para desejar que todos os dias pela nossa frente sejam prenhes de esperança, de realizações, de justiça, de uma vida melhor, para todos.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

E saiu do barco já era noite.

E saiu do barco já era noite.
Já nem se viam as gaivotas.
Entrou no carro gelado, a cabeça ainda ás voltas com as coisas que não tinha conseguido terminar e que amanhã lhe custariam mais, ás voltas com a colega angustiada com o caroço estranho, ás voltas com o colega da frente que via os dias passar até ao fim do contrato que já sabia que não iria ser renovado, ás voltas com as desculpas que tinha de dar ao telefone a mando chefe, mentiras que a fazem corar.
Conduziu até ao portão recolheu os miúdos, quase os últimos, chorosos, cansados a querer contar tudo ao mesmo tempo, tudo.
Sorriu, quase que conseguia fazer que ouvia, que a Madalena fez assim, a professora disse assado, o Rodrigo bateu no Tiago….
Entrou no prédio abriu o correio, retirou um monte de publicidade que lhe promete preços imbatíveis, umas férias de sonho, os dotes de um professor africano e um canalizador, e contas, nenhum postal carinhoso ou uma carta de amizade. Sorriu para si própria, que ideia, quem lhe escreveria?!

Entrou em casa, tirou as botas amarrou o cabelo, colocou a água a correr para os banhos, despendeu meia hora a ouvir a tagarelice infantil, enquanto cortou legumes, preparou bifes, fez salada, mais uma sopa, o arroz (É de cenoura mãe?! ), colocou as crianças no banho com um monte de brinquedos, a boiar entre a espuma, adivinhou que teria de lavar a chão da casa de banho, terminou o jantar, colocou os pratos na mesa, tirou as crianças da banheira, vestiu-lhes o pijama.

Ele chegou (Bife, outra vez?!), beijou as crianças ouviu o telejornal, como as crianças contou-lhe os percalços do dia (O Costa da contabilidade cada vez está mais estúpido caramba!).
Sentaram-se, jantaram, ele foi para a sala com as crianças, entre gritos e risadas, adivinhava-se as almofadas a bater em tudo.
Ela arrumou a cozinha, triturou a sopa, colocou a máquina da louça pronta a lavar, a da roupa também, dobrou peúgas, regou as plantas, limpou o chão da casa de banho, recolheu os golfinhos e tartarugas da banheira, apontou num bloco o que fazia falta (cenouras, papel higiénico, pasta de dentes, cebolas, leite), disse ás crianças que eram horas.

Deitou-os, contou a história, deu-lhes um beijo espantando-se com o tamanho dos seus bebés, separou a roupa para lhes vestir para o dia seguinte, entrou no quarto, vestiu o pijama, o roupão, foi novamente à cozinha, passou a ferro, foi para a sala sentou-se no sofá, viu-o a jogar, qualquer coisa no computador, fez um zapping, sentiu as pálpebras pesarem, ligou as máquinas, disse: Vou deitar-me!

Pensou: Amanhã é uma manhã igual ás outras!

Uma manhã como as outras.

O despertador tocou, outra vez as frases parvas da estação de rádio, a gritarem animados para se levantarem.
Saiu da cama a custo, muito custo, espantou os farrapos de sono como se tratassem de insectos inoportunos, ao seu lado o ressonar tranquilo.

Um duche, o primeiro jacto de água fria depois a lassidão da água quente, um sabonete, aroma de sândalo, pequeno luxo, sabonetes de aromas. Esfregou energicamente os seios avaliando a sua firmeza, as axilas, as pernas, saiu do duche apesar de lhe saber bem.
Embrulhou-se na toalha, pisou o chão frio com os pés descalços, acordou as crianças que teimosamente se agarravam ás almofadas, abanou o homem que ressonava tranquilamente na sua metade da cama “Levanta-te”.
Começou a vestir-se, seguiu para a cozinha, meio vestida, colocou as fatias de pão na torradeira, o leite a girar no microondas, voltou para o quarto enfiou os collantts olhando com agrado para as pernas, ainda bem torneadas, vestiu a saia, colocou desodorizante, a blusa, os brincos, guardou para depois as gotas de perfume sacramental.
Vestiu as crianças, meio ensonadas.
Secou o cabelo á pressa.

Distribuiu tigelas de leite, torradas, foi trincando uma enquanto analisava pacotes congelados para retirar para o jantar, eterno dilema, entre bifes, costeletas, postas de peixe.
Tirou a roupa lavada da máquina, a máquina colocada a lavar á noite, para ser mais barato, estendeu a roupa.
Sentiu aquela comichão inequívoca de uma malha na meia, a trepar pela perna, entrou no quarto, despiu a saia, os collantts, vestiu umas calças, umas peúgas quentes, foi buscar as botas, viu que faltava o pequeno pendente do fecho.

Colocou a louça na máquina, entrou na casa de banho e deu um beijo no homem que barbeava, pegou nas crianças, nas mochilas, no seu saco com o tupperware cheio de sopa, duas peças de fruta, um pacote de bolachas.
Colocou rímel a correr.

Prendeu as crianças nos bancos, deixou-as no seu destino, chorosos e sonolentos, estacionou o carro no parque de terra batida, onde só se tem de dar uma moeda ao toxicodependente de olhar vazio.
Correu para o barco, sentou-se, olhou o rio e as gaivotas, suspirou.
Agora, sim ia começar um dia de trabalho.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Junto a mim!


Hoje está tudo diferente.
Eu não me pareço comigo.
O sol não aparece.
O céu não parece o céu.

Hoje há um tom pastoso
Nas vozes
Nas paredes cinzentas
No frio cortante

Hoje pequenas agulhas
Picam
Cansam
Incomodam

Hoje tenho saudades dos dias de sol
De céu azul
De gargalhadas fáceis
De carícias lentas
Brincadeiras macias

Hoje quero gritar
Loucura
Lamento
Dor
Alegria, também

O estar perto
O estar longe
O sentir ausente
Do teu espaço
Do teu respirar
Do teu eu
Aqui junto a mim

sábado, 27 de dezembro de 2008

Rosa, minha tia Rosa

Impossível falar da família sem falar da Tia Rosa.
A Tia Rosa não era minha tia, mas demorei muitos anos a perceber que ela era prima do meu avô, que a minha Tia Deolinda, irmã do meu avô tinha cometido o desvario de casar com o primo, irmão da Tia Rosa, que passou a ser o meu Tio Miguel, embora fosse primo. Confuso?!
Um bocadinho, por isso para mim ela era irmã do meu Tio, era Tia dos meus primos, era Tia, também nunca se importou, com o tratamento de Tia.
Para além de ser prima do meu avô materno, era prima da minha avó paterna!
A Tia Rosa era magra, falava sempre num tom de voz calmo, tinha o nariz adunco e era seca. Cheia de rituais.
Casada com o Tio Marcos, mais baixo que ela com um ar gingão e fadista que contrastava com aquela austeridade.
Nunca tiveram filhos. O Tio Marcos justificava-se contando que na noite de núpcias foram a Lisboa ver uma revista ao Parque Mayer, no regresso o barco andou toda a noite à deriva, perdido no nevoeiro no Tejo, dizia com uma piscadela de olho: “Arrefeci!”.
Mais tarde descobri que não terem filhos nada tinha a ver com isso mas com umas irrigações feitas com permanganato que ela fazia.
No fundo acho que tais aplicações a tornaram estéril a vários níveis…

Não se bebia o chá nas chávenas onde se bebia o café com leite do pequeno almoço, tudo tinha um local próprio e uma forma de usar, qualquer espontaneidade era refreada pela aquela mulher autoritária, sempre com um tom de voz calmo, mas frio.
Assim escolheu ela o nome dos sobrinhos, impôs padrões de comportamento, proibiu a sobrinha de se aproximar das primas (minha mãe e irmãs), dado que eram raparigas que frequentavam bailes, deslocavam-se sem acompanhamento para o Liceu, frequentavam praias, usavam meias de vidro e mangas de cava. Péssimas influências!
Parecia que se empenhava em ter uma vida monótona, azeda, sem qualquer espécie de prazer que não fosse estragar o prazer dos outros à sua volta.
Em relação a mim abanava a cabeça pelo facto de eu brincar como os rapazes e aos 7 anos não saber bordar perfeitamente a ponto pé de flor, não conseguir estar sentada de forma aceitável para uma menina.
A sua observação era “Esta rapariga nunca irá ter preceitos!
Se ela me visse hoje a bordar ponto cruz, fazer tricot, pintar pratos e caixas, não sei o que pensaria embora de certeza que iria reparar que não obedeço a esquemas previamente definidos.
Nunca era áspera, ralhava e criticava com voz melíflua e como se estivesse a faze-lo com o maior dos carinhos…arrepiante agora que me lembro!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

O Meu Alentejo I

Portanto sempre estive perto do Alentejo e dos Alentejanos.
Quem tomava conta de mim desde miúda, era a minha Chica, a minha Chica é de Vila Nova da Baronia, Alvito, veio para o Barreiro, com o companheiro e os seus cinco filhos, fugida à fome, à falta de trabalho.
Não sei muito precisamente como conheceu os meus pais, sei que a minha mãe estava grávida de mim, que o meu pai se apaixonou por aquela família, principalmente pelos cinco rebentos.
O meu pai adorava crianças, gostava também da sabedoria popular, que o companheiro da Chica transmitia, uma sabedoria feita da vida e do trabalho, dos ciclos da terra.
Portanto esta família e a minha criaram laços muito fortes, quando nasci, quando a minha mãe foi trabalhar, fiquei com a Chica e com cinco irmãos mais velhos.
Aprendi muita coisa com eles, para além de me tirarem a chucha, com certeza irei falar mais sobre eles.
Mas aprendi que existia assim uma zona linda, de planícies, cigarras aos gritos, casas muito brancas com barra azul, louças de barro alegres e gente com fome.
Gente com fome que conseguia cantar as suas magoas num canto lindo e arrastado, que aprendeu a fazer delicias com muito pouco: agua quente, um fio de azeite, pão duro, coentros, uma açorda; ervas meio bravias como as beldroegas novamente para uma sopa divinal; uns pequenos nacos de porco, conservados na banha do mesmo, fritos, acompanhados de fabulosas migas de pão.
Fui com eles ao Alentejo, várias vezes, corria livre, chupava azedas, vi nascer borregos.
A primeira vez que assisti a uma matança de porco chorei desmesuradamente com pena do bicho, depois aprendi que aquele animal mantido a cascas de fruta e bolota, era o sustento de um ano inteiro, em chouriços, carne guardada na banha (banha de cor com que se barrava o pão), toucinho para se juntar a uma sopa.
Aprendi que aquelas terras imensas cobertas de espigas davam só essa riqueza, bem como a riqueza da cortiça, do vinho e do azeite a um numero pequeno de homens altivos de botas cardadas, jaquetas de pelica, que tratavam os outros todos como se fossem uma espécie de animais bravios, perdiam-se em dias de caça e petiscadas, luxos em Lisboa.
Aprendia também que aquela gente com aquele ar calmo, não era resignada, era apenas paciente.
Portanto ainda hoje este Alentejo, belo mas agreste, de fome e sofrimento faz parte de mim também.
Encontrei o mais tarde, muitas vezes, em histórias de diversas pessoas, nas palavras de Manuel da Fonseca, de Saramago e de outros.
Fiquei assim marcada por esse testemunho, não passado geneticamente mas transmitido.
E existe um Alentejo, meu assim, planícies a perder de vista, casas brancas, chaminés com cegonhas, milagres feitos com pouco e gente paciente, não conformada, mas paciente.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Uma prenda para todos!

Mesmo quem não gosta do Natal, espero que goste da música.
Eu gosto, portanto parem a playlist e ouçam.
Boas Festas!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Natal



Leio o teu nome
Na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado



De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.
Crianças que são ânsias alargadas
De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos.


Miguel Torga

Voltei! Outra vez....



Há um ano, mais coisa menos coisa,depois de uma ausência por questões de saúde, escrevi isto neste blogue, porque nada está muito diferente, aqui fica.

Afinal não desapareci em combate, embora cada vez haja mais combates a fazer! Eu sei que alguns tinham algumas esperanças que tivesse desistido, outros já me tinham perguntado: então? Chegámos ao Natal, o tempo da esperança, da família, dos presentes, da boa vontade, etc. TUDO MENTIRA!
Não consigo sentir nada disso, só sinto frio, no corpo e na alma, cruzo-me com rostos frios, tristes, carregados.
Por um lado o apelo ás compras por outro lado o desemprego, a inflação, as reformas miseráveis.
Por um lado o nascimento de uma criança, símbolo de esperança, numa manjedoura, recebido por reis e pastores, por outro lado os príncipes deste mundo a determinarem quais os meninos dignos de nascer em Maternidades quais os meninos dignos de nascerem numa ambulância, quais meninos que nascem com fome, quais os meninos que nascem em guerra.
Por um lado a Festa das crianças por outro lado o comprometer o futuro delas.
Por um lado o aeroporto, o futebol, as crises de Mourinho, os Tratados, a Cimeira, por outro a tristeza, a escuridão que não se ilumina com árvore de Natal da Loja dos Chineses.
Pronto, voltei e já tenho tido dias melhores.
Quero o cheiro do Natal da infância, quero acreditar que a pior coisa do mundo é o escuro ou não conseguir o cromo que falta a colecção, quero acordar com o alvoroço do pequeno presente na chaminé, lambuzar-me na calda das filhozes, ir apanhar musgo para o presépio, reconfortar-me com as luzes da árvore de Natal, acreditar que todos meninos recebem prenda, do pai Natal ou do Menino Jesus, porque a vida custa todos e entre os dois chegam a todo lado.
Quero ver as minhas tias a dobrar o papel de fantasia por que é muito lindo e serve outra vez…
Queria ver o olhar feliz do meu pai a dar-nos os brinquedos que lhe foram negados na infância, queria o cheiro pão fresco da minha avó, quero a brincadeira sem fim do dia 25 de Dezembro, quero a excitação do almoço em família mesmo que seja preciso tirar portas para nos sentamos todos à mesma mesa, quero ir ao circo no Coliseu e ver aquela rapariga linda com ar de princesa aos pulo num cavalo branco, acreditar na magia do ilusionista….e os vizinhos que batiam à porta para trocar um amável prato de doces, na televisão, no único canal de televisão, transmitiam sempre o “Música no Coração”, nós assistíamos como se fosse a única vez, a minha mãe e avó de avental, ir para casa no dia 24 ás cinco da tarde, quando começa a anoitecer, pela mão do meu pai e saber que tudo ia fechar: o sapateiro, a mercearia, a papelaria e tudo ia para casa começar um noite magica. Quero uma luz diferente, não é preciso ser a maior da Europa, só é preciso que me aqueça a alma…

domingo, 21 de dezembro de 2008

Pronto, incomoda



Pronto incomoda-me o teu abraço!
Incomoda-me ainda mais esse sorriso de alegria de pechisbeque que te apressas a usar quando me encontras!
Incomoda-me o sabor a cinza salgada na minha boca!
Não me olhas nos olhos!
Pedes de forma implícita a minha aprovação a cada palavra que deixas suspensa, à espera que te transmita um olhar, um pequeno aceno de cabeça!
Não porque as sintas, só por causa da máscara.
Não te dou nada, nem um sorriso, nem os meus braços respondeu aos teus calorosos abraços que ainda são frios, porque os meus braços pendem moles.
O sorriso que te concedo, nem te dou tão pouco, é um esgar!
Sim, fazes me desconfiar de mim própria.
Pergunto ainda quanto tempo mais irás usar uma máscara, que já te aperta as faces, como uma tortura.
Pergunto ainda onde está quem eu acreditava que teria uma face doce, talvez humana e genuína, onde está quem eu pensava que era transparente, será que alguma vez existiu?

sábado, 20 de dezembro de 2008

Os Olhos das Crianças



Atrás dos muros altos com garrafas partidas
bem atrás das grades de silêncio imposto
as crianças de olhos de espanto e de medo transidas
as crianças vendidas alugadas perseguidas
olham os poetas com lágrimas no rosto.






Olham os poetas as crianças das vielas
mas não pedem cançonetas mas não pedem baladas
o que elas pedem é que gritemos por elas
as crianças sem livros sem ternura sem janelas
as crianças dos versos que são como pedradas.






(Sidónio Muralha)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Ainda o mesmo...

Pronto é inevitável falar do Natal.
Eu sei que a crise continua, eu sei que tenho sempre contas para pagar, eu sei que não há justiça social, igualdade de oportunidades, sei que não se praticam os Direito Humanos, sei ainda que há crianças com fome e maltratadas, há guerra em diversas partes do mundo, doenças, há uma histeria colectiva de comprar, coisas inúteis e nem sequer pensadas como deve de ser, coisas que se compram só para se dizer que se comprou.
Sei de tudo isso, mas eu gosto do Natal.
Tenho sempre uma espécie de suspiro a passar pelas iluminações Natalícias, não sendo religiosa, acho que o pretexto de supostamente ter nascido um homem bom, supostamente nesta data ou o solstício de Inverno são pretextos tão bons para nos aconchegarmos em família como outro qualquer.
É claro que o podemos fazer noutra altura, mas porque não nesta?
Fui habituada a “viver o Natal” tento faze-lo e viver o Natal é isso juntarmo-nos, trocar um presente ainda que insignificante, ou um simples abraço, uma coisa barata mas de muito valor quando é sentido, fazer aquelas receitas um pouco mais complicadas, mas que feitas com carinho são também uma dadiva de nós, sentirmo-nos assim num ovo, quente e confortável, com uma casca de carinho.
As filhoses não são caras, são farinha, laranja, aguardente, um pouco de gordura, são fritas, passadas por açúcar e canela. Demoram tempo a fazer, terá de se colocar no bater da massa a energia da vida, deixar repousar depois para que ganhe sabor e leveza, o acto de esticar aqueles pequenos rectângulos terá de ser abnegado, no fritar terá de ser dado o calor exacto, rematar tudo com açúcar e canela.
Exótico, como festejar um ritual pagão de enfeitar uma árvore que não deixa cair folha ou festejar um nascimento no médio oriente.
Pouco saudável, mas se o Natal é quando queremos, eu as filhoses só as faço e como no Natal!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

CORES!



Gosto da cor de morango maduro esmagado!
Gosto da cor do pelo dos gatos
, das asas dos pássaros e das borboletas, gosto da cor de todas as flores,
da casca da árvores, da terra,
dos olhos,
da pele, dos frutos, das searas
e de outras
coisas que crescem,
daquele tom exacto de mar.

Encontrei

Encontrei-te assim sem esperar.
É sempre assim que as coisas importantes acontecem.
Por vezes é nos dias de sol que se entram arrepios inesperados, também já foi em dias cinzentos que encontrei calores inesperados.
Portanto encontrei-te, encontraste-me, encontrámo-nos.
Trazias mais do que esperava, muito mais, alegrias, sons, mágoas, recentes e antigas, expectativas, projectos, recordações, afectos, bagagem tua que partilhaste, como tal partilhei as minhas também, dar é uma forma de receber.
Importante é que te encontrei e agora não te quero perder.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Nostalgias!




Pronto isto tem dias nostálgicos, muito nostálgicos e esta época é sempre propícia a nostalgias.
Para além das saudades de pessoas que só vivem dentro de nós, já não entre nós, juntam-se as saudades de outras coisas, de um tempo em que queríamos que o tempo corresse mais depressa, mas em que era tudo muito mais simples, as coisas tinham os seus lugares, em que a preocupação fundamental seria fazer o mais depressa os trabalhos de casa para depois nos podermos sentar, ali na rua perto de casa, em campeonatos de pião e pedrinhas, jogos de semana desenhados na calçada com giz, banho seguir, esperar a ver desenhos animados a comparar cromos na caderneta, a ler um livro, depois jantar, cama em lençóis lavados com direito a beijo de boas noites, talvez a uma história contada com acompanhamento de uma caneca fumegante de leite e chocolate.
E reviver a magia anual de pendurar bolas e fitas, luzinhas minúsculas, um pai Natal feito de cartão, uma estrela dourada no topo do pinheiro.
Abanar os embrulhos na tentativa vã de adivinhar o que lá vinha.
Surripiar as figuras de chocolate suspensas, aninhadas entre bolas e fitas, esconder a prata debaixo da almofada do sofá!
Acompanhar os preparativos, aquelas misturas sábias, poções mágicas de açúcar e ovos, caldas e frutos, ter direito a rapar a tigela!
Apanhar musgo para o presépio, ver se as pequenas searas feitas em pires com água e centeio ou trigo, estavam em condições.
Correr atrás do peru e sermos corridos dali face aos gritos de “Coitadinho!”.
Passar aquela noite ali na mesa dos crescidos, com direito a comer na louça melhor, numa mesa com velas, antes de ir para a cama, a bota colocada ali por cima do fogão, ir para cama morta de sono e com o frenesim de que aquela noite fosse rápida.
Acordar descobrir, uns gatinhos de chocolate, livros novos caixas de Lego, uns embrulhinhos com peúgas, lenços e cuecas, que o Pai Natal e o Menino Jesus informavam-se junto a Legião de Tias e Avós das nossas necessidades, ou traziam uma camisola igualzinha a que a tia tricotava…

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Manias!



Acho que a natureza tem um ritmo próprio.
Tudo tem tempos próprios, detesto coisas fora de tempo!
Isto porquê?
No outro dia estavam cerejas à venda!
Cerejas! Em Dezembro!
Isso tem algum jeito?!
O que tem jeito são cerejas no fim da primavera, filhoses no Natal, Cozidos no Inverno, Sardinhas Assadas no Verão.
Morangos em Maio, com sumo, doces, aquele travo acre; laranjas agora que guardam o sabor do Verão para provarmos agora e não nos esquecermos; frutos secos, maçãs reinetas, agora, nesta altura logo a seguir ás castanhas e batatas-doces.
Estranho, tão estranho como gatos a voar, como crianças com fome, como a relação entre o preço das coisas e o petróleo estar agora a metade do preço que estava quando tudo subiu para o dobro, como continuarem a nascer crianças em ambulâncias mas não constituir noticias, estranho como os governantes falarem em dialogo e no entanto manterem-se surdos, estranho como não ser possível aumentar mais que 18 euros as pensões e ser possível entregar um ror de dinheiro à banca privada, como em nome da convergência da esquerda se alvitrar criar outro partido, estranho…
Acho que comer agora as cerejas seria quase igual a comer castanhas assadas em Agosto na praia, não combina!
Eu tenho estas manias estranhas!

Gilda forever

Margarita Carmen Cansino nasceu morena, com sangue espanhol e irlandês.
Hollywood pintou-lhe o cabelo de ruivo e mudou-lhe o nome para Rita Hayworth.
Ficou eternizada como a sensual e perigosa Gilda, dizia que o problema dela com os homens era que se apaixonavam por Gilda e acordavam com a Rita….
Entre esses homens, Orson Wells e Aly Khan.
Ficou sempre assim Gilda.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Do Amor e outros demónios…


O título não é original, mas adiante.
O que cobiçamos?!
Parece que aquilo que vemos muitas vezes, aquilo que nos parece inatingível, ou ainda aquilo com que nos identificamos. Sinceramente não sei.
Se por vezes são os nossos opostos que nos atraem, outras vezes parece que são os mais semelhantes.
Mas também não tenho a certeza que a atracção tenha a ver com a cobiça.
Poderá ter a ver com o desejo com a cobiça, tenho dúvidas. A cobiça implica posse, a posse nas relações amorosas não é grande coisa….
Conheço, conheci, casais verdadeiramente semelhantes como conheço e conheci casais opostos, perfeitamente opostos.
Conheço pessoas que têm ao longo da vida uma sucessão de relações amorosas semelhantes. Semelhantes no aspecto, na maneira de ser, na postura, como se tivessem agarrados a um modelo.
Conheço também quem aposte na diversidade, o próximo diferente do anterior, em tudo.
Já ouvi muitas teorias sobre o que nos atrai, a semelhança, a diferença, questões fisiológicas e químicas, simples impulso sexual, fascínio intelectual, sentimentos de protecção ou pelo contrário a sensação que nos protegem….Pensando bem deve ser um pouco disso tudo!

sábado, 13 de dezembro de 2008

Pasteis de Feijão e Surf



Pronto sempre que alguém fala em pastéis de feijão ou surf, lembro-me de ti.
O primeiro surfista que conheci, quando nem era moda ser surfista.
Calado, simpático, ganhaste o estatuto de familiar, ficavas connosco toda a semana e ao fim de semana partias, para as tuas ondas, voltavas com a Renault 4 carregada de pastéis de feijão, Casa Coroa, Torres Vedras, divinais!
Trazias ainda garrafas de vinho, um vinho especial, leve, que lá arranjavas, ao domingo esperávamos já esse contributo.
Depois os serões que passávamos juntos, eu recem casada, casamento que fizeste questão de assistir, como filho adoptivo dos meus tios sem filhos, nesses serões, para não ficar sozinha ficava contigo, ficávamos a falar de tudo, música, arte, história, explicavas os movimentos do surf, eu dava-te sugestões para peças novas que irias modelar em barro.
Tenho uma foto tua com um ar sorridente e os olhos verdes a fazer conjunto com a camisola.
E tenho o exemplar de “A Voz dos Deuses” rabiscado por ti, com bonecos e uma data, umas frases sobre a amizade e estarmos sempre cá.
E sorrias a examinar os meus bebés a dormirem, vias as unhas minúsculas perfeitas, as orelhas, as pálpebras, e espanto dizias “Giro, tão pequenino!”
Depois tiveste que partir, quando vinhas de visita era uma Festa, uma Festa com pastéis de feijão e vinho leve.
Já cá não estás!
Uma doença rápida e mortal corroeu-te a vida em poucos meses, estranhos os teus silêncios, até alguém nos ter telefonado.
Já tinhas partido, com ordens expressas para que não fossemos avisados, para não te vermos assim, a partires, ordens expressas para que não fossemos incomodados, que não houvessem exéquias.
O teu irmão não conseguiu, no último minuto traiu a promessa.
Portanto surf e pastéis de feijão és tu, com vinho leve, olhos verdes e uma amizade segura.
Tenho saudades de pastéis de feijão.

Assim só...



São quase uma da madrugada só agora cheguei a casa, não, não estive nos copos, nem na paródia, não fui ao Cinema ou ao Teatro, nem a jantar com amigos, a ver um concerto, nada disso.
Estive a assumir os meus compromissos, compromissos que se continuam a acumular no espaço escasso de agenda, atropelando-se uns aos outros em pequenas folgas, pausas para respirar, sorrir, ler, amar…
È claro que respiro sempre, também sorrio, até amo!
Amo tanta coisa que por vezes penso que nem tudo caberá dentro de mim.
Amo pessoas, claro!
As pessoas que escolhi para amar.
As pessoas em quem dei vida por amor.
As pessoas que sempre me deram amor também.
Amo a música, amo as viagens reais ou imaginárias, sendo que as reais são mais escassas, as imaginárias são feitas de livros, de quadros, de filmes, de projectos, também.
Amo a água, a relva, a areia, amo árvores, principalmente pinheiros mansos, limoeiros, sobreiros, abetos, o voo dos pássaros, o roçar de um gato, um chá quente de Inverno, uma bebida fresca no Verão, mergulhar, nadar, chapinhar, estender-me na areia, caminhar devagar na mata, ouvir música, mesmo diferente, música de água a correr, do mar a lançar ondas, do estalar das cascas das árvores, o aconchego macio que nos conforta.
Gosto de saber, gosto muito mesmo, saber qualquer coisa nova todos os dias.
Gosto de me lembrar, lembrar quem sou, quem fui, de onde vim.
Gosto de planear o futuro, sem coisas muito rígidas, mas planear.
Amo cheiros, pão quente, todos os citrinos, canela, o meu cheiro no corpo do outro depois de amar, erva fresca, terra molhada.
Até gosto da minha agenda, dos meus compromissos, de chegar depois aqui e escrever assim só o que me apetece!