sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Banal



Agora fica aqui só junto a mim e não digas nada!
Não tentes fazer piadas, nem galanteios, nem juras, nem tão pouco digas outras coisas, fica aqui só junto a mim.
Segura-me a mão, só.
Respira comigo, pensa comigo ou então não pensemos os dois, assim só um esquecimento, apenas a consciência de estarmos aqui.
Faz-me só e apenas sentir assim, plena.
Não tentes falar de banalidades, porque as banalidades nunca me assentaram bem.
Não tentes falar de coisas extraordinárias, porque ordinariamente já sou assim.
Deixa só este momento ficar assim suspenso, confortável e inquietante.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

E agora, Ana?



Há uns tempos atrás num Colóquio, Seminário ou Acção de Formação, num dos milhentos papeis a preencher havia um que me deixou embaraçada.
No papelucho, aparecia uma pergunta desconcertante: Como se caracteriza como pessoa?
De seguida seguiam-se uma série de itens a assinalar por ordem crescente:
Empreendedora-Passiva-Acertiva-Frontal-Colérica-Positiva-Negativa-Trabalhadora-Sensivél-Nervosa-Calma-Perspicaz-etc-etc-etc

Fiquei aparvalhada, ou mais que o costume, pensei-E Agora, Ana?
Ao meu lado toda a gente se afadigava a escolher, presumivelmente os mais benéficos.
Reflecti muito.
Achei que conforme os dias, a disposição, o ambiente, a equipa de trabalho, assim eu poderia assumir, uma ou várias características.
Talvez isso se pudesse traduzir que era uma pessoa instável?
Talvez.
Optei por não assinalar nada.
No final existiam duas linhas para observações.
Escrevi:
Sou uma pessoa que bebe o café sem açúcar, mas que o mexe.

Ainda hoje não sei com que ideia ficaram de mim!

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Não consigo, peço desculpa!



Já estou farta de dizer que finjo muito mal!
Não consigo fingir que a conversa é agradável, quando não é.
Mesmo que me esforce muito, os meus olhos geralmente não mentem…
Houve alturas em que tentei ter essa faculdade camaleónica de me adaptar ás situações e sorrir quando me dói a alma, em ensaiar um sorriso de circunstância para oferecer a quem me espeta dissimuladamente uma faca nas costas, ou nem tão pouco dissimuladamente, de fingir a amizade por quem me agride.
Tentaram ensinar-me, mas fui muito má aluna.
Não consigo!
Não consigo fingir sentimentos, consigo fingir lagosta com pescada, consigo fingir que está sol, quando chove, consigo até decorar um papel qualquer e fingir que sou aquela personagem, consigo até fingir que estou segura e que sou mais forte do que sou, que não tenho medo de falar em público, consigo até fingir que não tenho vontade de chorar, ou pedir colo, ou mergulhar no mar e esquecer-me.
Mas, peço desculpa, mas não consigo! Não consigo fingir-me, a mim!

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Hoje sei que as nuvens são só gotas de água suspensas.




Hoje sei que as nuvens são só gotas de água suspensas.
Durante muito tempo achei que eram outras coisas: fumo das chaminés das fábricas, dos escapes e dos cigarros; uma substância concreta em que se podia tocar, com muita sorte até deitarmo-nos lá, agarrar em bolas como a neve e arremessar uns aos outros; ainda cheguei a pensar que se podia usar como trampolim e que poderiam ser fofas e elásticas…
Parvoíces de menina, que se entretinha a ver formas de animais e coisas nas nuvens, que tinha simpatia pelas nuvens branquinhas que salpicavam o céu muito azul, pelas outras desciam até nós com forma de nevoeiro, que apesar de frias e húmidas eram uns pedaços de céu cá em baixo, dando um ar de mistério, com o seu ar de bruma, simpatia ainda pelas nuvens que discutiam umas com outras riscando céu com raios de luz, acompanhados sempre pelo estrondo dos trovões, ainda hoje gosto de assistir a esse espectáculo.
A primeira vez que vi nuvens por cima, sentada num avião a primeira ideia que me ocorreu foi em estender a mão e recolher um pouco.
Hoje sei o que as nuvens são, gosto mais do céu azul, mas também gosto de certas nuvens.
Não gosto de outro tipo de nuvens, as nuvens que nos vão ensombrando o futuro, nuvens pesadas de ameaça e de cinzento, nuvens que teimam em tornar tudo mais negro, quase que á força, roubam o sol, não trazem tão pouco chuva, trazem só tristeza, injustiças.
Essas ando sempre a sopra-las…

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Não vale a pena avisa-la...


Pronto andava á procura de um certificado de uma Acção de Formação que fiz em tempos, encontrei-me assim com 19 anos.
Estou a presidir a uma mesa de voto, naquela altura não se ganhava nada por ir para as mesas, era estar lá ás 6 da matina e sair quando tudo terminasse.
Na mesa era só homens, incluindo o meu primo, a maior parte deles conhecia-me de pequenina, tinham um certo orgulho em colocar-me assim na Presidência da mesa.
A foto foi tirada pelo namorado da altura.
Passado pouco tempo cheguei á conclusão que não queria mais aquela relação, fiz outras mudanças na minha vida.
Olho para esta jovem e sei que nesta altura os projectos dela são muito diferentes dos meus agora, tenho vontade de a avisar sobre certas coisas, mas é melhor não, ela vai aprender sozinha, como eu aprendo ainda, vai abrir-se e fechar-se ao mundo muitas vezes, vai ter alturas em que vai pensar que a vida vai ser sempre assim, vai ter alturas em que vira a mesa e diz que não, vai ter momentos de desespero, vai ter momentos felizes também, vai arriscar outros amores, mais ou menos felizes, vai ter alturas em que decide que não quer ninguém a seu lado, vai fazer muitos amigos, vai dedicar-se a projectos de corpo e alma.
Gostei de a encontrar assim cristalizada, neste momento.

domingo, 26 de outubro de 2008

Se eu conseguisse




Se eu conseguisse
Ficava assim para sempre
A falar de música e de mar
A sentir carinhos escondidos nas palavras fechadas
A respirar encaracoladamente
Nos silêncios
Arrumava num local
Remoto e inacessível
As dores, preocupações
O tempo contado
Outras coisas que nos gastam

Soltava o cabelo
Deixava-me estar naquele momento
Entre ondas de mar e camas de areia
Fazia do teu corpo almofada
Ou servia de almofada para ti, era igual
Sem contar o tempo
Sem pensar em mais do que o azul do mar

Para além do cabelo soltava vontades
Afagos,
Palavras daquelas nunca se dizem
Que escondemos também em silêncios
Que se escondem entre as outras como
Meninos tímidos e envergonhados

Eu bem sabia...


Contrariamente ao meu hábito vi um telejornal, ou parte dele.
Entre compras, fazer almoço, beber um café rápido com amigos, trabalhar, ir servir de táxi à avó que queria ver o seu novo neto, pegar embevecida no meu sobrinho que olhou para mim com um ar de confiança e conforto no meu colo, entregar a avó no domicilio, voltar para casa, fazer o jantar, fiquei a ver o telejornal.
RTP1.
João Adelino Faria, que continua a falar com aquele ar espanholado que ganhou enquanto foi correspondente da SIC em Espanha, de onde fez reportagens entusiasmadas sobre o casamento das infantas.
Naquele tom que me faz lembrar Paulo Bento, apresentou embevecido uma notícia sobre uma exposição jóias em grande escala.

Na reportagem falaram vários ourives, mostraram anéis do tamanho de vigias de navios, foi explicado que o negócio está a ter muita saída porque já existem encomendas para magnatas árabes do petróleo para bolas de Natal em prata, cento e tal ao que parece, no valor de mais de cem mil euros, também deu conta que existe uma outra encomenda de outro estrangeiro, que tem um cão que adora, para umas gamelas em prata maciça de onde o animal deverá beber água de Evian, recolhida em noites de lua cheia e comer de cão feito com vacas kobe….
Parece que estão a planear ter um stand na próxima feira do luxo…
A notícia seguinte ainda era mais gira: centenas de portugueses, papalvos, deslocaram-se à Avenida da Liberdade para assistir a carros de Formula 1 a descerem e subirem a dita cuja a alta velocidade…
Amanhã espera-se mais gente, porque parece que vem de propósito um campeão internacional de Formula 1, pelo que a Avenida fecha para os papalvos verem passar os bólides….

Devem fazer parte do grande grupo de portugueses que se abstêm, que vai para a porta do Big Brother, que vocifera contra as greves, que reclama a reincarnação do Professor Salazar para salvar de novo a nação, que queima contentores e destrói equipamento público em dia de futebol.
O meu filho mais novo olhou para mim e perguntou “Parece que nos estão a gozar, não é mãe?”

Pois parece filho!
Aliás, só podem estar a gozar…

Percebem porque evito ver noticiários?

Vi os Monty Pitton em Busca do Cálice Sagrado e comecei a bordar uns pintainhos com lenços de motard numa fralda….

sábado, 25 de outubro de 2008

Uma senhora!





Parece que uma das minhas trisavós era uma senhora!
Tão senhora que sabendo que o marido mantinha uma amante, um pouco longe de casa, pediu-lhe “que trouxesse a pequena para mais perto, podia-lhe acontecer qualquer coisa de noite, nos pinhais, quando ia de charrete ter com ela…”
Ele tratou prontamente do assunto, trouxe a pequena para uma casa mesmo em frente á “fazenda” da família!
Cumpriu as suas obrigações conjugais com zelo irrepreensível, a senhora e a amante tiveram o mesmo número de filhos, invariavelmente nasciam perto uns dos outros, com poucos dias de diferença, invariavelmente do mesmo sexo, a quem eram dados os mesmos nomes, excepto o apelido maternal.

Excepção feita á minha bisavó, primogénita do lado legitimo, a par tinha um irmão, a quem foi dado o nome do pai.
Então a senhora iniciou uma cruzada para educar aquelas crianças, as suas e da outra, com desvelos, alfabetizar, ensinar a meninas o governo da casa, a bordar, falar mais um idioma que o pai sempre era inglês.
Neste afã contava com apoio e igual empenho da filha mais velha, ainda lhe apareciam mais uns rebentos desgarrados, porque nas gestações dos filhos legítimos e da amante, o senhor do lar deitava mãos e o resto a qualquer moçoila mais desempoeirada que aparecesse no trabalho da fazenda.
Os frutos de mais essas aventuras, eram afilhados da “senhora”.
A “senhora” geria com abnegação o bem-estar do marido, de forma irrepreensível.
Até acatar a decisão suprema do corpo sair de casa da amante e não da sua.
Ficou na família como a Senhora.
As fotos mostram uma mulher irrepreensível, arrumada, penteada, com um olhar vazio.
As Lauras, Deolindas, Henriques, Edmundos, Amélias, todos a duplicar mantiveram esta memória transmitindo-a.
Ainda hoje, já na minha geração, mantemos laços afectivos e de convivência, sempre com o familiar rotulo de primos.
No entanto sempre que insistem para me comportar como uma senhora, lembro-me dela e penso: Livra-te Ana!

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Eu sei que vou te amar!



Esta música vem a calhar.
Hoje, conheci alguém que sei que vou amar.
Ou melhor já amo apaixonadamente!
E vai ser por toda a minha vida, mesmo, porque ele irá cá ficar depois de mim.
È um nico de gente!
Parece que tem os lábios grossos e cheios como os meus!
Não vi bem agarra-se já ao seio que o alimentava, com ar tranquilo e confortável.
Foi esperado, desejado.
Estávamos todos prontos para o receber, ansiosos, pensamos em diversas alturas que não se concretizaria, mas não, chegou, felizmente.
Quero-lhe ensinar as cores, o nome dos peixes e dos pássaros, o som que faz cada animal, ensinar-lhe umas músicas e lengalengas, falar-lhe do que está para trás, quem eram os bisavós, das tropelias que fiz em criança, quero que crie comigo os mesmos laços de afecto, cumplicidade e carinho que criei com as minhas tias.
Quero ensinar-lhe a seguir sempre o seu coração e ser tão verdadeiro como é hoje, poucas horas depois de nascer, no primeiro esforço da sua vida.
Assim, pequeno mas inteiro e concreto.
Quero estraga-lo com mimos assim saberei que daqui a muitos anos irá recordar-se de mim com doçura e estarei viva de outra forma…

quinta-feira, 23 de outubro de 2008





Pronto não me posso esquecer amanhã de lhe telefonar, passo todos os dias e não espremo cinco minutos para um olá?!
Espremes, se quiseres, não queres porque sabes que nas palavras meigas, vai-te recriminar pelo silêncio, em surdina de palavras nunca ditas, com alegria contida na voz apesar de tudo, pela falta de tempo que lhe dispensas, por só disponibilizares esse olá. Por não arranjares tempo para te sentares na cadeira de verga, como sempre fizeste, teres paciência para os movimentos cada vez mais lentos, para veres outra vez fotos amarelecidas, de cartão, centenárias, onde se olham bisavós, trisavós, tios que nunca viste mas até achas que conheces, porque sempre no mesmo tom de voz ela explica-te.
Eles apresentam narizes finos e compridos, diferentes do teu arrebitado, cabelos louros como os teus são escuros, peles alvas como a tua é azeitonada, olhos pequenos que se adivinham claros, tanto como os teus são escuros e grandes.
Ainda assim ela diz sempre naquele tom que nunca se altera, educado e meigo, que são o teu sangue também, que também fazes parte daquele conjunto.
E sorris para ela, olhas para os cabelos já brancos onde se adivinham uns restos de louro pálido, a pele mais branca que leite, onde se adivinham todas as veias, os olhos pequenos de um azul-bebé descorado, mas que ainda assim expressam uma ternura infinita.
Os anéis e pulseiras que conheces desde sempre, sabes de quem foram...
Não tens tempo para mais que um olá a contra relógio, porque até nem gostas de ir ao micro quintal, que sobrou de várias obras e parcelas que foram vendidas, com uma laranjeira órfã, onde dantes se viam gamboeiros, limoeiros, arvores de doce lima, canteiros de hortelã, galos e galinhas livres, um monte de areia onde construías barricadas, fortes, castelos, mimos de pastelaria, tudo em areia.
Não queres ter tempo para vagarosamente veres retirar de arcas amostras de bordados, daqueles que te tentavam ensinar, na tentativa quase inglória de te dar a instrução requerida a raparigas de outros tempos, apesar de tudo aprendeste, faze-los de uma forma estranha, subvertendo esquemas desenhados em papel de quadradinhos minúsculos, subvertendo esquemas de cores, a fazeres tudo de uma forma quase anárquica.
Ainda assim ela diz feliz que fazes bem, que está bonito.
E se deres mais um pouco de ti, mais do que um olá apressado ao telefone, ela irá recarregar as suas baterias, de mulher mal amada, contida por milhares de convenções, que sempre se adaptou ao que outros queriam, esperavam dela, achavam que seria normal, próprio, adequado, mas que ainda assim tem por ti uma ternura sem limites, desde o dia em que nascestes.
Filha de outro sangue, onde o dela também corre, apesar de que, olhando para as duas, não se descobrir nenhuma afinidade.
Ainda assim, sabes que ela tem saudades dos gamboeiros, de te ver brincar na areia, que se sente feliz por te ver mulher, tem orgulho em ti, por viveres a vida que nunca viveu.


E espera mesmo que seja pelo olá a contra relógio, pelo telefone

A Revolta


A Revolta é assim
Cresce devagarinho
Como um vento calmo
Que se transforma em furacão
Como uma mão dorida
Que amanhã é casca rude
De calos
Como a maré a encher
Quase que nem se vê
Mas cresce.
Como um fermento ázimo
A levedar em bolhas e silvos
Baixo, muito baixo
Quase, só quase em silencia
E a Revolta é mais
È um fragor
È o depósito de centenas de anos
De injustiças
Mentiras
Fraudes
E paciência
Muita Paciência
De fomes e sedes acumuladas
E depois não pára
Nunca pára
Fica como os furacões,
As Marés
As coisas fermentadas
A crescer sozinha
Incontrolável
Escuta!
Eu já ouço!
E tu?

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Coisas novamente perdidas


Como a vida anda sempre a repetir-se, num ciclo interminavél onde passamos pelas coisas muitas vezes, trago aqui um texto, que coloquei aqui em Março.

Porquê?

Porque me sinto assim tal e qual.

Naquela altura era Março, o vento fustigava as janelas, cheirava a chuva, os dias já ameaçavam, timidamente crescer. Agora cheira a chuva e os dias ameaçam diminuir. Eu procurava coisas que sabia ter guardado e não as encontrava, hoje estou na mesma, não encontro o que procuro, encontro outras coisas.


A minha especialidade é perder coisas, coisas variadas, tanto podem ser chaves, como cartões, documentos, brincos, exames médicos, agulhas de tricot, chaves, pincéis, colares, fotografias, enfim coisas. Por vezes não as perco, só as arrumo de forma a nunca mais me lembrar onde arrumei, sei que as arrumei muito bem com o comentário de “…fica aqui para saber onde está”, invariavelmente nunca mais tenho consciência do local onde as arrumei e faço a chamada pesquisa louca e revisto: todos os bolsos dos casacos, todas as malas, todos os sacos de praia, todas as gavetas, todas as bolsas, todas as caixas e baús… Invariavelmente, também, encontro outras coisas, não aquelas que procurava inicialmente e só o facto das encontrar faz-me sentir bem com o facto de nunca as ter deitado fora: fotografias de crianças que já são adultos; recados trocados no secundário escritos em pedaços de caderno escolar pela a mesma amiga que me ligou hoje de manhã a queixar-se da vida e a saber se estou bem; orlas de jornais, aquele espaço em branco onde acabam as letras mas ainda não acabou o jornal, cheias de desenhos de barcos feitos a esferográfica, barcos desenhados pelo meu pai, barcos de perfil e com cortes transversais e medidas escritas entre parêntesis, o meu pai que nasceu junto ao Tejo e mal sabia nadar e que adorava barcos, em cada cidade visitávamos as docas, os portos com o odor do mar e os gritos das gaivotas como pano de fundo aquele passeio; encontrei ainda a lembrança dos pés da minha irmã acabada de nascer, pequeninos com pequenos rolos de lã entre os dedos, farrapos das botinhas que eu lhe descalcei para examinar aquela pequena amostra de pés; e os cheiros, do meu tio Mário a Cigarrilhas e Brut, da minha avó a Colónia 4711, do Verão a figos maduros que só combinam com o som atordoante de mil cigarras, da Bolema de maçã que a minha mãe faz, que cheira a pão fresco, canela e Outono; e o sorriso cúmplice que foi trocado, depois de fazer amor, que tinha consigo a certeza que iria ser por muitos anos, ainda dura; ainda o suspiro de alivio em uníssono que eu e o meu filho mais velho emitimos da primeira vez que o aninhei ao meu colo depois de três dias de trabalho de parto; o cheiro a bebé de todos os bebés que já peguei ao colo; a cumplicidade da infância com os meus primos, todos de joelhos esfolados pintados com mercúrio, a devorar todos os frutos de um medronheiro ao sol, e o sabor, também encontrei o sabor, quase sensual, da polpa quente, macia e incandescente do medronho; o beliscão, é verdade o beliscão da minha prima Aurora que se fazia acompanhar de uma fatia de pão com geleia de marmelo, já não há, ela morreu com 90 anos e tratou-me sempre como se eu tivesse 5 e levou o sabor daquela geleia; o olhar trocista do meu filho mais novo da primeira vez que encarou comigo, um olhar de adulto, destemido e avaliador, como se já percebesse o mundo; bilhetes de concertos e filmes que nunca mais me esqueci… Não encontrei o que procurava, encontrei muito mais…

Só uma pergunta...




“Crédito. Há cada vez mais portugueses a entrar em litígio com a banca. O malparado no crédito à habitação e ao consumo subiu 26,5% entre Agosto do ano passado e o mesmo mês deste ano. Nas empresas, o incumprimento aumentou 36,8% e já representa 2,2% do total dos empréstimos concedidos. Construtores estão a falhar os pagamentos à banca
Pelo menos 23 mil famílias portuguesas com empréstimos à compra de casa deixaram de ter as contas em dia com a banca. Nos primeiros oito meses do ano o total dos empréstimos hipotecários em falta atingiu os 1,51 mil milhões euros, um aumento (em termos absolutos) de 23,7% em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com os dados ontem divulgados pelo Banco de Portugal. É no crédito ao consumo que se verificam maiores níveis de incumprimento. Até Agosto último, o colapso das famílias com os empréstimos - que significam 4,6% do total dos créditos concedidos, contra os 3,3% em 2007 - aumentou, em termos absolutos, 69,8%, em comparação com o total do mesmo mês do ano passado. Apesar deste cifrões, nem por isso, pelo menos até Agosto, a banca retirou o pé do acelerador dos empréstimos. É que os créditos aumentaram 23,7%, o que parece contrariar afirmações dos banqueiros relativas a um cenário de forte aperto nas condições na concessão de crédito. Em rigor, o endividamento financeiro das famílias deverá ser muito maior, já que nesta contabilidade não entram os empréstimos concedidos ao telefone por instituições parabancárias, bem como o "calote" nos leasing ou em ALD, de equipamentos ou carros ou no velho costume dos cheques pré-datados.Para os portugueses - por factores culturais e sociais, para além da maior flexibilidade oferecida pela banca - a renda da casa é a última dívida a desrespeitar. Por isso, num cenário de dificuldades com a bolsa doméstica, se explica a explosão no incumprimento com o crédito ao consumo. Acresce que este tipo de empréstimos não, está, muitas vezes, associado a garantias reais, o que deixa os incumpridores a salvo de penhoras bancárias, pelo menos no curto prazo. O total do "mal parado" na banca, em empréstimos à habitação e ao consumo, aumentou 26,5% entre Agosto do ano passado e o mesmo mês deste ano. Neste capítulo, não é possível apurar quantas famílias estão em posição devedora, mas a banca está a "arder" nos balanços com 2,8 mil milhões de euros, 2,1% do total dos empréstimos concedidos. Ao contrário do que se esperava, nem os subsídios de férias parecem terem sido usados para apagar dívidas vencidas.O endividamento médio dos portugueses junto da banca ultrapassa em 29% o rendimento médio anual disponível (salários e rendas, descontado os impostos), de acordo com dados do banco central. Ou seja, o salário de um ano já não paga o acumulado em empréstimos.A acumulação de dívidas pode constituir um travão ao crescimento da economia portuguesa - bem como ao crescimento dos empréstimos - já que as famílias mostram pouca propensão a aumentar os gastos. São os efeitos directos do crescimento da factura com os juros, aumento do desemprego e inflação que corrói ganhos salariais. Em Junho último, num relatório sobre a economia portuguesa, o Banco de Portugal admitia que o endividamento podia "estar a constituir uma restrição activa para a evolução do consumo privado e do investimento residencial".

(Diário de Noticias de 22 de Outubro de 2008)

Pergunta:

Qual o apoio que o Governo prevê dar a estas famílias?

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Procura







Ando a ver se encontro
Nas coisas mais banais
No vento uivante
No pó suspenso num raio de sol
Na curva da copa das arvores
No marulhar do mar
Procuro entre os meus papéis
Nos meus apontamentos
Procuro nas gavetas
No voo dos pássaros

No cheiro das maçãs
Nas gargalhadas das crianças
Procurei também na mala
Naquela música
Aquela, sabes?
Naquelas pinceladas de vermelho
Entre as nuvens
Ao fim da tarde
Que gritam
“Até amanhã!”
Continuo sempre a procurar
Por vezes acho que é essa procura
Apenas e só o caminho
Vou encontrando tantas coisas
Histórias, recordações
Projectos, Mágoas
Sim, também
Algumas dores

Pessoas, ideias
Amigos
A noite, sim encontro a noite
Encontro forças, fraquezas
Carinhos
Alegrias, momentos de puro prazer
Alguns só de cansaço, inquietação
Vontade de gritar, também
Mas continuo sempre á procura
De mim!

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

A Bera...


Ao ter falado ontem algumas diabruras da infância relembrei outras, é sempre assim não é?
A questão é abrir os arquivos da memória. Éramos imaginativos!
Agíamos em bando, ou o Bando pequeno, eu e os meus dois primos, ou os miúdos do quarteirão inteiro.
Eu e o primo da minha idade fazíamos uma dupla imparável
Lembro-me várias, desde as experiências que fazíamos, em que juntávamos numa tigela, malga, fosse o que fosse, um bocadinho de cada coisa existente no armário da casa de banho, cada coisa compreendia desde agua oxigenada e tintura de iodo a cetavlex e pó de arroz.
Misturávamos tudo e aplicávamos nos braços do Avô Zé, avô só dos meus primos mas que era meu avô por arrasto e que dava cobertura a todas as loucuras.
Trepar a arvores, comer fruta directamente nessas escaladas, isso era trivial, tão trivial como o quintal de família que tinha uma figueira, uma ginjeira, uma nespereira, um limoeiro e uma laranjeira.


Era a nossa selva de explorações audazes, ilha de piratas, bosque medieval, conforme a aventura.
Menos trivial foi devorar-mos todos os medronhos de num dia de verão, de um medronheiro existente no terreno de um amigo de família.
Apanhamos uma piela e ninguém percebia porquê até se dar conta que o medronheiro estava limpo.
Amarrar guitas (cordéis) aos batentes em forma de mão a segurar uma bola, nas casas antigas e ficar do outro lado da rua a ver o desassossego das velhotas por não perceberem quem lhes batia à porta.


Uma que não lembra a ninguém consistiu em mastigar seis pastilhas super Gorilas (alguém se lembra?) e fazer 3 balões enormes, que fechamos cuidadosamente com os dedos e colocámos no congelador, quando a bisavó dos meus primos o abriu deparou-se com 3 bolas cinzentas a flutuar (devido ao nosso bafo quente que continha) à altura do seu nariz que entretanto rebentaram com um som poc…
Escusado será dizer que a senhora ia tendo um ataque.
Molhar de propósito com o borrifador da roupa o açúcar amarelo, porque a nossa avó nos deixava comer os torrões.
Roubarmos ladrilhos de marmelada dos tabuleiros tapados com papel vegetal.
Decidirmos fazer experiências culinárias, que terminavam em mistelas impossíveis de comer ou grandes dores de barriga, a cozinha toda suja e vários utensílios de cozinha estragados…
Encher latas de Ceralac de bombas de Carnaval para ver qual a altura a que elevavam…
Os métodos infalíveis que tínhamos para arrancar dentes de leite a abanar que passavam por amarrar uma linha ao dente e o outro extremo a um dardo com ventosa que disparávamos, ou a uma seta…
Levar grilos para dentro de casa e obrigar a família a andar de madrugada à procura do bicharoco que não deixava ninguém dormir.
Os jogos de Química, tremendo presente que recebemos e deu direito a vários estragos.
Campeonatos de pião, espeta e berlindes….


A nossa vivência era feita de um prédio onde residiam avós, bisavós e vários casais de tios-avós, dos meus primos, mas que sempre me adoptaram, a casa da nossa avó comum, a casas das múltiplas tias e primas avós que tínhamos, ainda temos, aliás, uma parte.
Na maior parte delas tínhamos liberdade quase total, nalgumas mais ríspidas tínhamos de ser mais contidos.
Algumas tinham horta, quintal e galinheiro.
Uma delas, morreu recentemente com 90 anos, nunca me chamou Ana, apenas “Bera”, um “Bera” carinhoso, acompanhado de beliscões nas bochechas apesar de eu me ter dobrar para os beliscões, dos meus filhos olharem pasmados para aquilo, da minha Tia Isaura insistir que já não me deviam tratar assim “Porque a menina já é uma senhora!”, apesar disso sentia-me sempre a “Bera”, e a minha prima recompensava-me as traquinices com uma fabulosa fatia de pão caseiro e doce tomate.
Acho que nunca deixei de ser a “Bera”!
Agora que abri esta porta de recordações, dou por mim a lembrar-me de muitas mais.
Até à adolescência eu fazia tudo como eles, apesar de ser “a menina”, depois quando fisicamente começámos a modificar-nos fomos de certa forma apartados, mas continuámos cúmplices pela adolescência fora, em outras tropelias que ficam para outra vez…

domingo, 19 de outubro de 2008

Quinta dos Rapazinhos!






Já falei aqui das férias de infância, acabavam com duas ou três semanas na Quinta dos Rapazinhos.
A Quinta dos Rapazinhos ficava em Seiça, terreola do Concelho de Vila Nova de Ourém, perto de Tomar e Fátima.
A viagem era comprida e apinhava-mos no carro quatro adultos e três crianças.
A Quinta dos Rapazinhos era da Tia Maria, viúva de um professor primário, irmão da bisavó dos meus primos.
Portanto a Tia Maria, não me era nada em termos de parentesco, o que não isentava de tratamento de Tia e sobrinha.
A Tia Maria era uma mulher humilde, do campo, depois do marido morrer dormia num esconso, num divã e mantinha a casa imaculada e arrumada como ele a deixou.
A casa era antiga, com soalhos de tábua corrida que rangiam, nós dormíamos nas águas furtadas, os meus primos nas camas de ferro eu numa cama de abrir, levada de propósito, porque na primeira vez que lá fui descobriu-se que quando dormia nas camas de ferro, com colchões cheios de folhelho de milho, acordava num tom vermelho de alergia.
A casa era bonita, estava recheada de móveis pesados e soturnos, com torcidos e tremidos, acumulavam-se no escritório de móveis de pau santo e centenas de Revistas “Plateia”.

A Tia Maria tinha feito um casamento por amor, casamento que a família do marido não queria dada a sua condição de camponesa, pobre e analfabeta, contra a posição de professor Primário com algo de seu.
Acho que foram felizes, parece que a única tristeza foi não terem tido filhos.
Ele ensinou-a a Ler, ela referia-se sempre a ele como “O Sr. Professor”.
A Tia Maria recebia-nos com carinho, as nossas correrias animavam aquele casarão sem electricidade e transportávamos connosco uma televisão portátil, antena e bateria de automóvel para ligar a mesma.

A Tia Maria deliciava-se com aquela novidade, vendo emocionada Margot Fontein a dançar o Lago dos Cisnes, nós deliciávamo-nos com candeeiros a petróleo e histórias de fantasmas no sótão.

Deliciávamo-nos ainda com uma liberdade sem fronteiras, que nos permitia subir ás arvores para ver os ninhos, apanhar milho, nadar na ribeira, apanhar girinos para colocar na pia da água benta, ir à vacaria buscar leite morno ordenhado na altura, jogar matraquilhos no único estabelecimento da localidade que juntava um misto de taberna, mercearia e posto dos correios.
Também andávamos de bicicleta e de mota, porque no campo toda a gente de tem motorizadas.
Brincávamos com os miúdos do local e acompanhávamos as suas tarefas de campo, com a diferença que para eles era trabalho, para nós novidade.
De vez em quando deslocávamo-nos a Tomar e passávamos o dia na piscina, também a Vila Nova de Ourém, descobríamos o Castelo de Ourém, o Convento de Cristo em Tomar e dedicávamo-nos a inventar histórias de templários, principalmente à hora da sesta, em que não dormíamos e alternávamos Templários com jogos de cartas.
A Quinta dos Rapazinhos era o último reduto de Liberdade antes das aulas começarem, fomos lá sempre, até ao principio da adolescência, até que nos deixou de interessar, a tia Maria morreu, dos diversos herdeiros ninguém optou por conservar aquela casa senhorial e mágica.
Foi vendida por uma bagatela!
Nunca mais lá fui, nem quero, quero conservar a Tia Maria e a sua casa mágica assim para sempre.

sábado, 18 de outubro de 2008

Povo Programado


Numa conversa com um amigo surgiu o assunto da indiferença e apatia dos Portugueses.
Os Portugueses são pouco, muito pouco reivindicativos.
Costumam deixar continuar as coisas escudando-se em varias atitudes, que no fundo são a mesma, desresponsabilizar-se do seu papel como cidadãos.
Assim, ou declaram solenemente que não votam, que “à minha conta não se enchem eles!”, ou encolhem os ombros e dizem “o que se há de fazer?!” ou ainda “eu com politica não quero nada”.
São atitudes tristes, mas mais que isso são atitudes para as quais foram programados.
Durante a implantação da Republica o sonho compreendia a educação da população portuguesa refém de um atraso brutal, continuar o Plano do Conde Ferreira, que dedicou parte substancial da sua fortuna ganha no Brasil a construir mais de uma centena de Escolas de Instrução Primária por todo o país.
Mas isso não interessava ao Regime Fascista!
Interessava pelo contrário um povo maleável, desconhecedor, que não soubesse interpretar as coisas do mundo.
Assim, inteligentemente o Ensino foi substituído por um conjunto de conhecimentos empíricos e de conceitos bacocos, que ficaram bem vincados na personalidade do povo português.
Para além do conjunto de distracção dos três efes (Futebol, Fátima e Fado), exacerbados como reduto do espírito lusitano, ficaram ainda outros conceitos: Pobrezinho mas honesto, Orgulhosamente Só e acima de tudo não nos devemos meter em politicas….

Ignorando assim o facto de ser a politica que determina que só encontramos laranja de Israel no Algarve ou leite holandês nos Açores, que é a politica que determina o valor da reforma ou a quantidade de creches comparticipadas, que é politica que faz com se fechem hospitais ou que a banca pague menos impostos que um guarda florestal…
O 25 de Abril trouxe mais abertura, pela primeira vez havia acesso à música “lá de fora”, aos filmes, aos livros, à democratização do ensino, ao sonho de uma vida melhor.
No entanto depressa muita da abertura dada, foi gorada.
O PREC como espaço de esclarecimento e difusão da cultura, foi morto.
Daí para cá o ensino tem sido delapidado e esvaziado de conteúdos, os meios de informação controlados ao sabor da política dominante, por seu lado controlada por grandes interesses financeiros, doses maciças de entretenimento, absolutamente oco, são distribuídas massivamente.
Criou-se a ilusão que somos um povo avançado, cosmopolita, conhecedor.
Os descendentes dos camponeses e operários, analfabetos, do princípio do século XX, são hoje parte dos licenciados do princípio do séc. XXI, no entanto não se distanciaram muito do modelo ancestral.

Ostentam o curso como uma medalha, tem pouca cultura geral, não andam descalços, isso não, calçam sapatos de marca, comprados a crédito, tem telemóvel topo de gama, mas no fundo são ainda o mesmo povo.
Não serão todos é certo, mas são muitos….